Os Psapp parecem ser bastante divertidos e inovadores! Quero conhecer melhor...
quinta-feira, 28 de junho de 2007
sábado, 23 de junho de 2007
Primavera-Verão
Primavera... quase não tivemos. Será que o Verão veio para ficar? Este ciclo ao qual nos habituámos parece estar a mudar. Uma certa irritabilidade pode instalar-se quando esperamos algum calor e o sol a brilhar e nada disso acontece, na época marcada. As referências alteram-se e o mundo pode começar a parecer um lugar inóspito de tão imprevisível pela negativa.
Claro que esta visão pode ser só um certo desconsolo pela falta do Verão... Hoje, o dia amanheceu solarengo. Boas perspectivas!
(Imagem de Butterfly Fairies )
Claro que esta visão pode ser só um certo desconsolo pela falta do Verão... Hoje, o dia amanheceu solarengo. Boas perspectivas!
(Imagem de Butterfly Fairies )
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Ana Paula Sena
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10:36
terça-feira, 19 de junho de 2007
Interpretar...
Comprei este livrinho há dias e gostei imenso da leitura. Atraiu-me a ideia de acompanhar os últimos dez anos da vida de Ravel. Sempre tive uma grande curiosidade acerca da vida dos compositores, Mozart, Schubert, Debussy, Satie... Mas sobre Maurice Ravel (1875-1937) nunca tinha pesquisado muito. Surgiu, agora, a oportunidade de ficar a saber mais acerca dele pela leitura deste romance de Jean Echenoz. Apesar de não se tratar, de facto, de uma biografia, mas sim de uma ficção à volta de um personagem real. Não deixa de ser enriquecedor, até porque do escritor pouco sabia e, agora, tenho-o como referência a não esquecer. Gostei mesmo do livro!
A capa que aqui apresento é da edição francesa. Entre nós, o romance foi publicado pela Sextante Editora (anteriormente, Sudoeste Editora). Num pequeno livro simplesmente apetecível... E que me apeteceu. Ficando além da minha expectativa.
Jean Echenoz fala-nos de Ravel de uma forma elegante, atraente e simultaneamente objectiva e rigorosa. Pelo fio da sua narrativa, somos conduzidos até factos e questões extremamente interessantes. Apesar do anti-psicologismo com que Echenoz gosta de caracterizar as suas personagens, conseguimos compreender um pouco do homem que foi compositor. Admiramos, de alguma forma, o compositor que habitou o homem.
Neste livro, uma das questões que mais me tocou, entre outras, foi aquela a que se refere o pequeno excerto que aqui transcrevo:
A capa que aqui apresento é da edição francesa. Entre nós, o romance foi publicado pela Sextante Editora (anteriormente, Sudoeste Editora). Num pequeno livro simplesmente apetecível... E que me apeteceu. Ficando além da minha expectativa.
Jean Echenoz fala-nos de Ravel de uma forma elegante, atraente e simultaneamente objectiva e rigorosa. Pelo fio da sua narrativa, somos conduzidos até factos e questões extremamente interessantes. Apesar do anti-psicologismo com que Echenoz gosta de caracterizar as suas personagens, conseguimos compreender um pouco do homem que foi compositor. Admiramos, de alguma forma, o compositor que habitou o homem.
Neste livro, uma das questões que mais me tocou, entre outras, foi aquela a que se refere o pequeno excerto que aqui transcrevo:
"(...) Em Viena, é convidado com Marguerite para um grande jantar seguido de uma recepção em sua honra oferecida em casa de Paul Wittgenstein durante a qual, este, que encomendou e a quem foi dedicada a obra, vai tocar o concerto com a sua própria mão. (...).
Desde o início da interpretação, e enquanto vai seguindo o concerto pela partitura, que Marguerite, sentada desta vez ao lado do autor, pode ler no rosto cada vez mais macilento de Ravel as consequências lastimáveis das iniciativas do maneta. É que Wittgenstein não se limitou a simplificar a obra para adaptá-la aos seus recursos, pelo contrário, aproveitou a ocasião para mostrar até que ponto, por diminuído que esteja, não deixa de ser um bom intérprete. Em vez de respeitar a obra e servi-la o melhor que pode, ei-lo a fazer brilharetes, acrescentando arpejos, compassos aqui e ali, desenhando trinados, meneios rítmicos que o texto não lhe pedia, apogiaturas e grupetos, passando dos baixos aos agudos, percorrendo o teclado por inteiro, para mostrar como é ágil, como é vivo, como é uma criatura condescendente e se está nas tintas para todos os presentes. O rosto de Ravel fica branco.
No final do concerto, (...): Ravel aproxima-se devagar de Wittgenstein, e nunca ninguém o viu assim desde o caso com Toscanini. Isto não pode ser, disse ele, friamente. É que não pode ser de maneira nenhuma. Não pode ser, está a ouvir? Meu caro, diz Wittgenstein a tentar defender-se, eu sou um velho pianista, e tal como o senhor escreveu é que não pode ser tocado, não soa bem. E eu sou um velho orquestrador, responde Ravel cada vez mais gelado, e digo-lhe que pode. (...)
(...)
Mas Ravel não se esquece daquilo que para ele é o mais importante: desde o seu regresso a França que se opõe totalmente à vinda de Wittgenstein, que estava interessado em ir dar um concerto em Paris. Escreve-lhe umas simples palavras nas quais dá a entender que a sua interpretação não passou de uma má imitação e convida-o a tocar a sua obra rigorosamente tal como foi composta. Quando Wittgenstein, vexado, lhe responde que os intérpretes não devem ser escravos, Ravel responde-lhe por sua vez em quatro palavras: Os intérpretes são escravos."
Desde o início da interpretação, e enquanto vai seguindo o concerto pela partitura, que Marguerite, sentada desta vez ao lado do autor, pode ler no rosto cada vez mais macilento de Ravel as consequências lastimáveis das iniciativas do maneta. É que Wittgenstein não se limitou a simplificar a obra para adaptá-la aos seus recursos, pelo contrário, aproveitou a ocasião para mostrar até que ponto, por diminuído que esteja, não deixa de ser um bom intérprete. Em vez de respeitar a obra e servi-la o melhor que pode, ei-lo a fazer brilharetes, acrescentando arpejos, compassos aqui e ali, desenhando trinados, meneios rítmicos que o texto não lhe pedia, apogiaturas e grupetos, passando dos baixos aos agudos, percorrendo o teclado por inteiro, para mostrar como é ágil, como é vivo, como é uma criatura condescendente e se está nas tintas para todos os presentes. O rosto de Ravel fica branco.
No final do concerto, (...): Ravel aproxima-se devagar de Wittgenstein, e nunca ninguém o viu assim desde o caso com Toscanini. Isto não pode ser, disse ele, friamente. É que não pode ser de maneira nenhuma. Não pode ser, está a ouvir? Meu caro, diz Wittgenstein a tentar defender-se, eu sou um velho pianista, e tal como o senhor escreveu é que não pode ser tocado, não soa bem. E eu sou um velho orquestrador, responde Ravel cada vez mais gelado, e digo-lhe que pode. (...)
(...)
Mas Ravel não se esquece daquilo que para ele é o mais importante: desde o seu regresso a França que se opõe totalmente à vinda de Wittgenstein, que estava interessado em ir dar um concerto em Paris. Escreve-lhe umas simples palavras nas quais dá a entender que a sua interpretação não passou de uma má imitação e convida-o a tocar a sua obra rigorosamente tal como foi composta. Quando Wittgenstein, vexado, lhe responde que os intérpretes não devem ser escravos, Ravel responde-lhe por sua vez em quatro palavras: Os intérpretes são escravos."
in Ravel, Jean Echenoz
Nota: O sublinhado é meu.
Ora bem. Esta questão da relação entre compositor e intérprete, a dificuldade de atingir um acordo quanto à forma correcta de execução, é uma questão perene. No domínio da música e não só. Coloca o sempre difícil problema da interpretação.
Sempre achei fascinante a ideia transmitida por muitos pianistas e outro tipo de intérpretes: a de que, em determinada altura, terão "entrado" na mente e na sensibilidade do compositor cujas obras executam. Na verdade, parece-me extraordinário, conseguir sentir, pensar, como sentiu/sente, pensou/pensa um outro. Sobretudo se o meio de comunicação entre estes dois seres é a linguagem musical e não a verbal. O que é particularmente relevante na interpretação das obras dos compositores do passado. Como se, desta forma única, uma ponte que se estende para além do tempo e da morte fosse construída. Construída porque julgo ter muito de trabalho persistente, mais do que espírito de uma certa "mística".
Será, então, o intérprete um escravo? Ou um intérprete imprime sempre algo de seu, o seu próprio "eu" fará sempre sentir-se na sua execução? O seu cunho pessoal? Ou será tanto mais fiel à obra e ao seu autor, se conseguir despojar-se de si e investir-se do "espírito" de um outro? É para pensar...
De qualquer modo, se interpretar é tornar-se escravo, é de observar e escutar um escravo absolutamente magnífico que penso poderá elucidar todas as respostas possíveis. Quando todas as palavras parecem vãs perante esta expressividade:
(YouTube: Bernstein Plays Ravel's Concerto in G )
Mais acerca de Jean Echenoz aqui
Sempre achei fascinante a ideia transmitida por muitos pianistas e outro tipo de intérpretes: a de que, em determinada altura, terão "entrado" na mente e na sensibilidade do compositor cujas obras executam. Na verdade, parece-me extraordinário, conseguir sentir, pensar, como sentiu/sente, pensou/pensa um outro. Sobretudo se o meio de comunicação entre estes dois seres é a linguagem musical e não a verbal. O que é particularmente relevante na interpretação das obras dos compositores do passado. Como se, desta forma única, uma ponte que se estende para além do tempo e da morte fosse construída. Construída porque julgo ter muito de trabalho persistente, mais do que espírito de uma certa "mística".
Será, então, o intérprete um escravo? Ou um intérprete imprime sempre algo de seu, o seu próprio "eu" fará sempre sentir-se na sua execução? O seu cunho pessoal? Ou será tanto mais fiel à obra e ao seu autor, se conseguir despojar-se de si e investir-se do "espírito" de um outro? É para pensar...
De qualquer modo, se interpretar é tornar-se escravo, é de observar e escutar um escravo absolutamente magnífico que penso poderá elucidar todas as respostas possíveis. Quando todas as palavras parecem vãs perante esta expressividade:
(YouTube: Bernstein Plays Ravel's Concerto in G )
Mais acerca de Jean Echenoz aqui
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Ana Paula Sena
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03:08
domingo, 17 de junho de 2007
Recordar...
Na câmara de reflexão
IV
Reúno coisas comovidamente:
Da mãe, o xaile azul, do namorado
Um beijo no Relvão, da avó demente,
O anjo que cantava no telhado;
Da ilha, a hota lassa que ao poente
Rendia o mar a um sono nacarado,
De febris coisas, já no Continente,
Num clarão de ametistas, o amado,
Dos meus passos da cruz, as cicatrizes;
Da minha estrela errante, outros países;
Do breve encontro, um rosto que se esfuma...
Coisas que em busca da sua ligação
Reúno. Absurda sensação
De as juntar e não ter coisa nenhuma.
Natália Correia
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Ana Paula Sena
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03:05
sexta-feira, 15 de junho de 2007
A Metafísica do Olhar
- Anda cá. Olha bem lá ao fundo. Consegues ver a minha casa?- Não, não vejo nada. Se calhar, está longe demais.
- Não, não está longe. Está mesmo ali, por trás daquela colina. Vê-se perfeitamente daqui. Tens que olhar com atenção.
- Mas não vejo. Desculpa.
- Repara. Aquela casa lilás, ali ao fundo... Não vês as janelas? E o brilho de todas as cores que delas emana? E o terraço azul-oceano, enfeitado com dezenas de taças repletas de todas as frescas delícias, por ti desejadas?
- Não. Na verdade, não consigo ver. Gostava de te acompanhar, mas não vejo mesmo nada do que me queres mostrar.
- Repara bem. Não estás a olhar comigo. Experimenta assim: fechas os olhos e procuras, lá no fundo de ti , a imagem. Mas procuras com muita força. Com todas as tuas garras. Bem afiadas.
Experimenta lá, agora. Agarra a imagem.
- Humm...hummm... Acho que estou a ver qualquer coisa...! Mas é indistinta. Só cor e brilho. Não vejo casa nenhuma.
- Não acredito! Então, não me vês a abrir-te a porta para entrares?! Não vês o enorme jardim verde-esmeralda e amarelo irradiante, onde poderás correr livremente e estender o teu olhar?! Onde te quero oferecer todas as delícias frescas que possuo?!
- Pois. Desculpa. Está um bocadinho difícil... Tens que ter paciência comigo.
- Não te preocupes. Eu sou paciente. Mas tens que imaginar. Liberta a tua imaginação comigo. Verás que está tudo lá. Verás que é real. A nossa realidade. Minha, desde há muito. E agora, tua também. Logo que a vejas, começo a partilhá-la contigo.
- Entendo.
- Não queres fazer mais um esforço? Ora, tenta lá de novo.
- Humm...humm... Sim! Sim! Estou a conseguir. Ainda não muito bem. Há muita névoa. Mas acho que vou ser capaz.
- Eu bem te disse. É só questão de quereres. De quereres com muita, muita força! Tens que dominar o teu olhar. Ora, olha lá de novo... Não vês agora, distintamente, a minha casa que te ofereço? Será o teu reino. Apodera-te dele. Primeiro, com o olhar. O resto, fica para depois...
- Vou usar todo o poder da mimha imaginação. Espera...está qualquer coisa a aparecer... Vejo quase...quase... tudo o que dizes. Espera só mais um bocadinho...
- Eu espero. Já vês, agora?
- Oh, sim! Que maravilha! Agora, sim. Vejo tudo perfeitamente! Tudinho. Até me vejo a mim... lá...
- Pois. Eu sabia que eras tu... Deixa-me abraçar-te melhor... Encontraste o meu olhar. Sinto que vais ficar comigo...
(Imagem: fotografia de autor desconhecido)
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Ana Paula Sena
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09:51
quinta-feira, 14 de junho de 2007
terça-feira, 12 de junho de 2007
Do Sísifo que há em mim...
Pois é! Dias há em que a multiplicidade de tarefas nos vem afrontar como empreendimento impossível de realizar. Elas surgem em catadupa e para contrabalançar esta espécie de sufoco apenas se vislumbram imagens-miragens de umas meras horas de descanso. Lá ao longe, o sofá parece um oásis. Inalcançável.
Às vezes, dava jeito ter uma "gavetazinha" (de tamanho gigante!) onde se conseguissem guardar, longe da vista, todas as tarefas que é preciso realizar mas que estão por cumprir. De vez em quando, abria-se a dita gaveta e lá se tirava uma...ou outra... Mas evitava-se o permanente confronto com todas ao mesmo tempo e seria possível gerir melhor o seu constante apelo. Mas não. Eu ainda não consegui arranjar a dita imaginada "gavetazinha". Terrível!
Em contrapartida, o que parece acontecer, inúmeras vezes, é as tarefas aparecerem sem se fazerem rogadas, quer em número, quer em exigência de concretização. Não adianta fugir. Estão por todo o lado. Abre-se uma janela e elas entram feitas vendaval, em forma de pó para limpar ou de ideia para concretizar. Se, ao contrário, a janela é fechada e a porta aberta (é preciso renovar o ar!), ei-las entrando de rompante, sem se fazerem rogadas, sem pedir licença nem nada, instalam-se no dito sofá, então um não-oásis!
Portas e janelas fechadas. Pois. Mas lá estão elas a rondar o espaço da casa. E ainda é pior sentir o seu lamento de passos em volta, a pedir que as deixe entrar. Danadas! Resta sair de casa e esperar que não nos persigam, que se esqueçam de ir atrás de nós... Mas não. Das mais estranhas e inesperadas formas se revestem para surpreenderem e aparecerem ali mesmo à frente, batendo o pé, teimosas, expectantes. Ou atrás, sussurrando em lamento a imensa falha da sua realização sempre adiada. Ou de lado, olhando de soslaio, não querendo dar parte de fracas mas mantendo a sua vigilante presença. Impassíveis perante o peso que me fazem sentir. Reparo nelas a partir daquele ângulo onde o olhar quase consegue eclipsá-las. Mas as malandras deixam-se vislumbrar num cantinho da minha esgotada visão que até acontece ser visão raios-x, por vezes, conseguindo atravessar paredes e todo o tipo de obstáculos, vendo-as com toda a nitidez por detrás de tudo! Isto é que é um poder! Pena ser o meu único pretenso super-poder...
Postas as coisas assim, o que se impõe perguntar é o que fazer com elas. Com as ditas. Às tantas começam a ganhar contornos de fantasmas. O melhor é enfrentá-los. Não permitir espectros indefinidos atrás de nós, dissolvê-los no ar que respiramos à medida que se enfrentam um a um... Apesar da consciencialização que se vai operando, pela qual se torna clara, nítida e distinta a sua inevitabilidade e a necessidade de aprender a conviver com tarefas para sempre.
Faz todo o sentido que a fadiga se imponha, a partir desta existência cumpridora de múltiplas tarefas. E não admira que passe a ser síndroma de fadiga crónica. Talvez não seja possível contornar isto, a não ser com umas ideias românticas... Ora, o que é um pensamentozinho insidioso? Talvez aquele que a pouco e pouco se insinua em nós e penetra não só nos poros, na pele mas também nas ideias, que marca não só os pensamentos mas sobretudo os gestos. E é assim que é possível tomar nota da monotonia das tarefas, da rotina da sua execução, da inevitabilidade da sua necessidade, da perpétua repetição a que estamos sujeitos enquanto espíritos empreendedores que pode acontecer sermos. Mas também fica, pela mesma via, justificada a razão de ser da sua natureza preciosa. Como existir sem elas?! Não seria algo deste nosso mundo!
A fadiga pode ganhar proporções e contornos mais perigosos quando é psicológica. Quer dizer, quando fica claro, nítido e evidente que nunca vamos conseguir realizar tudo. E a vastidão do tudo, tão imensa, cansa logo à partida. É inútil. Não nos é possível. É uma tarefa interminável. Por outro lado, é este processo lento mas inexorável da consciência que nos coloca bem no centro da nossa verdadeira condição: a humana.
Às vezes, dava jeito ter uma "gavetazinha" (de tamanho gigante!) onde se conseguissem guardar, longe da vista, todas as tarefas que é preciso realizar mas que estão por cumprir. De vez em quando, abria-se a dita gaveta e lá se tirava uma...ou outra... Mas evitava-se o permanente confronto com todas ao mesmo tempo e seria possível gerir melhor o seu constante apelo. Mas não. Eu ainda não consegui arranjar a dita imaginada "gavetazinha". Terrível!
Em contrapartida, o que parece acontecer, inúmeras vezes, é as tarefas aparecerem sem se fazerem rogadas, quer em número, quer em exigência de concretização. Não adianta fugir. Estão por todo o lado. Abre-se uma janela e elas entram feitas vendaval, em forma de pó para limpar ou de ideia para concretizar. Se, ao contrário, a janela é fechada e a porta aberta (é preciso renovar o ar!), ei-las entrando de rompante, sem se fazerem rogadas, sem pedir licença nem nada, instalam-se no dito sofá, então um não-oásis!
Portas e janelas fechadas. Pois. Mas lá estão elas a rondar o espaço da casa. E ainda é pior sentir o seu lamento de passos em volta, a pedir que as deixe entrar. Danadas! Resta sair de casa e esperar que não nos persigam, que se esqueçam de ir atrás de nós... Mas não. Das mais estranhas e inesperadas formas se revestem para surpreenderem e aparecerem ali mesmo à frente, batendo o pé, teimosas, expectantes. Ou atrás, sussurrando em lamento a imensa falha da sua realização sempre adiada. Ou de lado, olhando de soslaio, não querendo dar parte de fracas mas mantendo a sua vigilante presença. Impassíveis perante o peso que me fazem sentir. Reparo nelas a partir daquele ângulo onde o olhar quase consegue eclipsá-las. Mas as malandras deixam-se vislumbrar num cantinho da minha esgotada visão que até acontece ser visão raios-x, por vezes, conseguindo atravessar paredes e todo o tipo de obstáculos, vendo-as com toda a nitidez por detrás de tudo! Isto é que é um poder! Pena ser o meu único pretenso super-poder...
Postas as coisas assim, o que se impõe perguntar é o que fazer com elas. Com as ditas. Às tantas começam a ganhar contornos de fantasmas. O melhor é enfrentá-los. Não permitir espectros indefinidos atrás de nós, dissolvê-los no ar que respiramos à medida que se enfrentam um a um... Apesar da consciencialização que se vai operando, pela qual se torna clara, nítida e distinta a sua inevitabilidade e a necessidade de aprender a conviver com tarefas para sempre.
Faz todo o sentido que a fadiga se imponha, a partir desta existência cumpridora de múltiplas tarefas. E não admira que passe a ser síndroma de fadiga crónica. Talvez não seja possível contornar isto, a não ser com umas ideias românticas... Ora, o que é um pensamentozinho insidioso? Talvez aquele que a pouco e pouco se insinua em nós e penetra não só nos poros, na pele mas também nas ideias, que marca não só os pensamentos mas sobretudo os gestos. E é assim que é possível tomar nota da monotonia das tarefas, da rotina da sua execução, da inevitabilidade da sua necessidade, da perpétua repetição a que estamos sujeitos enquanto espíritos empreendedores que pode acontecer sermos. Mas também fica, pela mesma via, justificada a razão de ser da sua natureza preciosa. Como existir sem elas?! Não seria algo deste nosso mundo!
A fadiga pode ganhar proporções e contornos mais perigosos quando é psicológica. Quer dizer, quando fica claro, nítido e evidente que nunca vamos conseguir realizar tudo. E a vastidão do tudo, tão imensa, cansa logo à partida. É inútil. Não nos é possível. É uma tarefa interminável. Por outro lado, é este processo lento mas inexorável da consciência que nos coloca bem no centro da nossa verdadeira condição: a humana.
É precisamente aqui, neste ponto, que faz sentido recordar esse tão interessante Mito de Sísifo, símbolo do nosso interminável esforço para concretizar uma tarefa em grande medida impossível de realizar. Embora o esforço permanente seja inútil, parece ser igualmente irredutível. Maravilhoso contrasenso! Já me sucedeu, um belo dia, dois belos dias, ... acordar com esta aguda consciência da minha condição "sisifiana". Momentos fugazes, felizmente! Mas que se tornaram dignos de registo. Momentos em que, cansada, pude sentir-me feliz. Feliz perante essa "pedra", a qual com dificuldade se consegue colocar no topo da montanha e logo começa a resvalar para vir ter de novo connosco. Parece mentira, mas consegui sentir-me estranhamente apaziguada perante a tremenda empreitada.
Ai! É em momentos assim que me sinto mais realizada. Feliz por não conseguir ficar de braços cruzados a olhar para a pedra. Rindo-me dela, impassível, imóvel. Ou olhando-a indiferente sem sequer a ver, de facto. Feliz por não conseguir render-me face à inutilidade do movimento ascendente que volta a impulsionar a pedra para o topo. Sempre repetido. Feliz por esta teimosia persistente. Romanticamente feliz com o inútil. Alegre por possuir esta tarefa tão gritantemente humana. Absurdo? Talvez. Mas quando é que é possível ser-se humano sem se ser absurdo?
Esta absurda humanidade feliz... Que me leva a querer dizer com Camus: " A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração (...). É preciso imaginar Sísifo feliz."
Ai! É em momentos assim que me sinto mais realizada. Feliz por não conseguir ficar de braços cruzados a olhar para a pedra. Rindo-me dela, impassível, imóvel. Ou olhando-a indiferente sem sequer a ver, de facto. Feliz por não conseguir render-me face à inutilidade do movimento ascendente que volta a impulsionar a pedra para o topo. Sempre repetido. Feliz por esta teimosia persistente. Romanticamente feliz com o inútil. Alegre por possuir esta tarefa tão gritantemente humana. Absurdo? Talvez. Mas quando é que é possível ser-se humano sem se ser absurdo?
Esta absurda humanidade feliz... Que me leva a querer dizer com Camus: " A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração (...). É preciso imaginar Sísifo feliz."
Serei, então, maravilhosamente absurda! Está decidido.
Bom...nesse caso, tenho que ir ali concretizar mais umas tarefas...
(Imagens: "Sísifo" de autor desconhecido e "Fatigue", ilustração de Steve Adams)
Bom...nesse caso, tenho que ir ali concretizar mais umas tarefas...
(Imagens: "Sísifo" de autor desconhecido e "Fatigue", ilustração de Steve Adams)
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Ana Paula Sena
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