quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Pobreza

É suposto pensarmos na pobreza. É suposto falarmos dela e enfrentá-la. Talvez averiguar porque é que ainda existe. Talvez fazer algo que ajude a acabar com ela...
Mas todos sabemos como é difícil erradicar um mal. Quase sempre, quando se corta de um lado, ele aparece num outro. No entanto, a demissão cómoda em relação ao que sabemos estar errado também pode ser inadmissível.
A chamada ajuda humanitária é importante. Às vezes, a oportunidade de a praticarmos pode estar mesmo ali ao nosso lado. Porque a pobreza reveste muitas formas, umas mais evidentes, outras camufladas. A questão coloca-se, desde logo, na sua identificação. É certo que existem situações de pobreza óbvia. Olhar para essas situações incomoda mas há quem não nos permita não olhar. Por vezes, a pobreza é "posta" aí para ser olhada na sua crueza, brutalidade e radicalidade. É por isso que admiro o trabalho de
Sebastião Salgado. A dimensão artística do seu trabalho fotográfico parece-me admirável. No entanto, é o seu olhar de intervenção que mais me cativa. E obriga-me a olhar...
A pobreza é uma realidade. Mas que integra diversos níveis da realidade e, por isso, distintos planos de análise. Julgo que todos se interpenetram. E talvez seja essa a razão profunda pela qual a pobreza não desaparece da face do nosso planeta.
A pobreza a que devemos acudir é aquela que é mais premente: a fome, a falta de condições sanitárias e de cuidados de saúde, o direito à habitação, à educação... Mas as outras formas de pobreza influenciam e perpetuam aquela, a mais urgente no combate. Refiro-me à pobreza de espírito, à pobreza de diálogo, à pobreza de solidariedade, à pobreza de ideais, à pobreza de afectos... A ausência de horizontes alargados e de perspectivas de progresso para as sociedades humanas, isso tudo é também aquilo que origina a pobreza ao nível mais primário e elementar.


O perfeito alheamento do outro em que vive a sociedade actual, a sociedade onde existe "fartura", onde existe riqueza, é também pobreza. A questão é: aqueles que nada têm para se alimentar, não podem ter qualquer tipo de intervenção real na sua situação. Estão dominados pela insatisfação das necessidades mais elementares. Mas aqueles que já têm essas necessidades satisfeitas, são só esses que podem alcançar, então, a realização de necessidades mais elevadas (à maneira de
Maslow e da sua pirâmide das necessidades). Mais elevadas como é o caso da necessidade de contribuir para um mundo melhor, por ex., ou na mesma linha, a necessidade de concretizar esse desejo mediante planos de intervenção eficazes e sua implementação efectiva. A questão é que também aqui existe pobreza. Não há muitos ideais nem há muitas crenças na possibilidade de um mundo melhor. E esta pobreza, tal como a outra, inibe toda a acção. Problema dos problemas, não podemos comprar ideais. Nem crenças. Só nos resta criá-los e criá-las.

A pobreza do diálogo, a pobreza de gestos de entreajuda, a pobreza do olhar... Talvez seja necessário combater esta pobreza que co-habita com a abundância, para chegar a acabar com a outra.
Bem sei, sou uma idealista.

(Imagens: fotografias de Sebastião Salgado)

sábado, 13 de outubro de 2007

Estrelas, poeiras e buracos negros...


Por estes dias, ouvi uma notícia que me pareceu super interessante e digna de ser assinalada. Entre o que se escuta por aí, é preciso fazer triagens. Feita a minha, seleccionei este facto, agora relembrado à luz de novas imagens obtidas, e que já há algum tempo tem vindo a suscitar a minha admiração e curiosidade (espanto filosófico, se quiserem...). Também uma certa alegria.
Refere-se a nós e refere-se às estrelas. Existe algo mais atraente? Aquelas estrelinhas tão bonitas, a piscar no céu, são feitas da matéria que está na nossa origem. Na do planeta, na da vida em geral, em última análise, na origem da nossa vida de seres humanos.

Cientistas, astrónomos e astrofísicos em particular, constataram através das suas investigações, desenvolvidas ao longo dos últimos anos, e a partir de imagens que lhes vão sendo enviadas do espaço, o seguinte facto extraordinário: há poeira estelar nas imediações de buracos negros. Assim sendo, pode pensar-se, desde já, que esta poeira, matéria que estará na origem das próprias estrelas, provém de um local onde, hipoteticamente, tudo é sugado e nada é devolvido. Onde nada escapa ao desaparecimento para um algures...
Pelos vistos, ou alguma coisa não é "engolida" ou é-nos devolvida pelos buracos negros. Porque fica por ali, nas imediações dos ditos buracos negros, até chegar a ser visível por nós. Visão esta que não posso deixar de considerar como resultado de trabalhos de "gigantes"! Quando quer, o ser humano é capaz de coisas magníficas. Pena que não se distribuam sempre as energias de uma forma mais acertada para o futuro da nossa espécie.

Assim sendo, fica a interrogação: o universo formou-se a partir de um buraco negro?! Que mistérios encerram estes estranhos locais do universo? Afinal, a vida surgiu das "trevas"?! Interrogações que ficam no ar, para pensar, sempre à espera de mais novidades...

Quando dizemos que somos "feitos" de estrelas, podemos em alternativa avançar que somos feitos de poeira estelar que "convive" com buracos negros... A diferença reside provavelmente, entre outros importantes aspectos, numa questão de transformações da matéria e no facto de ela existir sob maior ou menor ordem, organização e complexidade.

Fica esta menção, nada "científica", nada conclusiva, mas repleta da minha mais profunda admiração!

Para mais informação sobre... seleccionei aqui

De destacar também a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Doris Lessing. Justamente merecido. Uma grande escritora que nos tem proporcionado uma insubstituível visão do ser humano. Porque não se têm publicado mais as suas obras?!

O facto do Prémio Nobel da Paz ter ido para Al Gore, bom, neste caso, já se me colocam algumas dúvidas quanto a tal decisão.

Bom fim-de-semana!

(Imagem daqui )

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Era uma vez...


Era uma vez um rei e esse rei tinha um trono. Por vezes, o rei pensava em partilhar o seu trono com outras pessoas, pois eram muitas as ocasiões em que se sentia sózinho. Assim descobriu que estava entediado. Todos os seus domínios lhe pareciam cinzentos para lá da sua vastidão geográfica. Todos os súbditos lhe pareciam desinteressantes. A sua inteira obediência era uma constante e já nem sabia que destino dar a tantas ofertas e tantos presentes que à sua volta se empoeiravam. Por vezes, noite dentro, saía do seu quarto, e pé ante pé, ia espreitar as tantas coisas que possuía. Vezes houve em que julgou ouvir risos abafados. Podia jurar que todos aqueles objectos estavam animados, embora adormecidos. Podia jurar que se riam dele e que esse estranho riso era de troça. Troça da sua inutilidade e vã existência.

O rei sentia-se muito aborrecido com este seu estado de espírito. Foi por isso que teve a ideia de arranjar uma rainha. Foi difícil escolhê-la porque as pretendentes eram mais que muitas. Finalmente, decidiu-se por uma futura rainha que parecia divertida e calma de uma só vez. E passou assim a partilhar com ela os seus dias, percorrendo na sua companhia os corredores do seu imponente castelo, os quais se estendiam longa e solenemente, carregados de uma atmosfera fria. Pairava no ar um vazio, uma certa ausência de sinais de vida.

Corrido tempo, o rei voltou a sentir-se entediado. Mas a acrescer veio o facto de a rainha ter perdido o seu bom humor e ter começado a sentir igualmente um indescritível tédio. Tinha lido algures que se tratava do spleen, requintadamente retratado por Baudelaire e Proust. Mas nada disso aliviava o mal-estar dum e doutro.
O rei ainda fez uma iluminada tentativa para alegrar a rainha: ofereceu-lhe uma varinha de condão. Em tempos, tinha-se divertido bastante com ela. E a rainha também andou divertida por uns tempos, transformando flores em abóboras e abóboras em flores; tornando homens em mulheres e mulheres em homens; espalhando amor, desamor, ódio, alegria e tristeza a seu bel-prazer. Uma vez transformou um homem em rato e fartou-se de rir. Uma vez até se lembrou de apanhar o rei desprevenido e transformá-lo em súbdito. Foi realmente um dos momentos mais divertidos da vida da rainha. Nem sequer lhe ocorreu que o rei pudesse ter feito o mesmo com ela, inúmeras vezes. Estava demasiado entretida com transformações.
Uma outra vez, lembrou-se de usar a varinha mágica de condão, ou lá o que era aquela batuta brilhante, em si mesma. O desejo era sentir-se feliz. E ficou. Mas acabou por achar desagradável tanta felicidade. E usou o toque mágico para ser infeliz, de novo.

Assim se passaram vários e longos anos. O spleen escorria cada vez mais pelas paredes do imenso castelo. Essa atmosfera invadia cada vez mais a pele e o pensamento quer do rei, quer da rainha. Decidiram então ter principezinhos. E em pouco tempo, ecoavam no castelo choros, gritos e risos de dois filhos dos reis: um principezinho e uma princesinha. Foram bons tempos no castelo deste rei e sua rainha. Mas os principezinhos faziam justiça ao ditado "quem sai aos seus, não degenera". E em poucos anos, os risos de crianças no castelo evaporaram-se... Quem fosse visitar as encantadoras crianças, depressa reparava no seu aborrecimento permanente. Nada as satisfazia, tudo as aborrecia. Os seus desejos eram ordens e os súbditos fizeram de tudo para as alegrar. Indiferença...
Felizmente, o rei tinha um anjo protector. E a rainha outro. Estes anjos tinham umas amigas fadas. Foi assim que em reunião de emergência, perante tal estado de coisas, decidiram todos em conjunto accionar o plano radical que tinham sempre guardado para casos destes.

Uma grande tempestade abateu-se sobre o castelo. A terra tremeu e as grossas paredes frias abriram frestas e cairam. O rei, no meio deste desabar brutal, ainda ficou ferido, mas os anjos providenciaram a fuga de todos a salvo. À volta, todo o reino mostrava a face da destruição. As terras ardiam, os súbditos gritavam e fugiam, os animais morriam. Enquanto corria, olhando à sua volta, cheia de medo, a rainha lembrou-se do que tinha lido acerca do inferno, imaginado por Dante. Mas isso só a fez fugir mais depressa. Foi assim que esta família: rei, rainha e seus principezinhos se viram sem nada. Na miséria. O rei nunca mais se recompôs totalmente dos seus ferimentos. E a vida transformou-se. Sem varinha de condão. Mas por obra e graça dos anjos e das fadas.

Um belo dia, daqueles em que uma peça de fruta e um pedaço de pão lhes foi possível arranjar... Estavam todos sentados à beira de um riacho, apreciando a parca refeição... O rei olhou a sua rainha, depois os filhos... E sentiu-se feliz. Viu perante si a perspectiva do dia seguinte, sem possuir nada agora... e lembrou-se de que tinha muito para fazer. E sentiu-se feliz. Olhou de novo a rainha e depois as crianças. Quis dar-lhes o que estava em falta. E sentiu-se feliz.
De imediato, rainha e principezinhos sorriram. Não sabiam porquê, mas também descobriam a felicidade. Uma espécie de anti-spleen que acabavam de encontrar. Fome, sede e desconforto. Trabalhos e canseiras, lutas em espera... O delírio da existência como incógnita. A vida em modo experimental. Sem conclusões científicas. Nem líricas. Até porque a rainha tinha perdido todos os seus livros no meio da reviravolta e confusão. E a varinha de condão... essa também não resistiu aos estragos.
A vida é bela!
Psicanálise de Contos de Fadas made in A.P.

sábado, 6 de outubro de 2007

Joie de vivre!

É preciso saber temperar a vida com pequenas doses de alegria. Há pequenas coisas simples que estão aí para nos dar essa alegria.
Saberei encontrá-las, aproveitá-las?
Sei que é isso a sabedoria, a verdadeira. E estou a aprender...
Por agora, com algo tão simples como uma musiquinha. Nunca conseguiria ser feliz sem música. Jamais.
Bom fim-de-semana para todos!


quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Alma Lusa ou Filosofia da Saudade

Para quem tem uma alma lusa... que o mesmo é dizer, para quem vive o sentimento da saudade.
Quando se olha o Tejo, jogo de sombras e névoas, ou ainda iluminado pela intensa claridade... quando se ouve, ao longe, o fado... toda a força da vida se condensa nessa intensa emoção que é saudade.
Consciência da relatividade de tudo? Vestígio de um passado repleto de partidas?
Podemos não saber. Mas faz parte de nós.



Poeta

Quando a primeira lágrima aflorou
Nos meus olhos, divina claridade
A minha pátria aldeia alumiou
Duma luz triste, que era já saudade.
Humildes, pobres cousas, como eu sou
Dor acesa na vossa escuridade...
Sou, em futuro, o tempo que passou -
Em num, o antigo tempo é nova idade.
Sou fraga da montanha, névoa astral,
Quimérica figura matinal,
Imagem de alma em terra modelada.
Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.

Teixeira de Pascoaes




"Só o que no mais íntimo da alma acalenta as altas aspirações dignificadoras do homem, só o que ama profundamente a vida e sente presente sempre o obsediante enigma do ser, aquele que, ao erguer nos braços uma criança, ergue uma alvorada no coração; o que compreende o sorriso macerado do humilde, a agonia do sonhador infecundo, tudo o que há de grande, trágico e inexprimível; esse só pode ensinar a vida."
Leonardo Coimbra, in Dispersos II


(Imagens: fotografia de autor desconhecido e Morte de Inês de Columbano Bordalo Pinheiro)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Sem palavras...

Descobri recentemente e fiquei fascinada por este diferente olhar sobre a realidade.
O olhar transforma a realidade? Ou ela contém em si tantas outras coisas, ocultas expressões de vida que só alguns conseguem ver?
Um exemplo de talento devastador.




Diane Arbus
. Uma fotógrafa extraordinária (à qual voltarei...), revela o verdadeiro significado da expressão:

"uma imagem vale por mil palavras"


sábado, 29 de setembro de 2007

Quem vai ao mar, perde o lugar.



Conchas, estrelas do mar
Pérolas
Nas tuas mãos cativas
Todos os dias
Nada te pode fazer parar
Outros as esperam
P'ra respirar
H2O tem oxigénio
E toda a faina contém um prémio
Mas na do mar, vai-se o lugar

Sempre assim foi com os pescadores
Tão semelhantes, no fundo iguais
Partem com a fé
Dos sonhadores

E quando chegam, luz nos olhares
O tempo ausente do qual regressam
Em noites mostra
Areias plenas
Almas inquietas
Pleno o silêncio
O dos ruídos
Quando confessam
Que já se foi o seu lugar...

(Imagem: pintura de Jacek Yerka)

domingo, 23 de setembro de 2007

Fast informação


Pode parecer improvável e ser loucura querer retroceder até a um tempo onde a informação não circulava. Ao tempo das trevas... Mas não, não se trata disso. Trata-se do seu reverso: a fast informação, aquela que se assemelha cada vez mais à fast food. Pode dar jeito e permitir-nos tempo para outras coisas. Mas sempre...torna-se agressiva.
Parece inútil dedicar algum tempo a uma refeição para degustar e digerir devagar. Quando há tanto para fazer... Mas, pessoalmente, comer à pressa, provoca-me dores de estômago.

Pois, a questão é que a informação está no mesmo ponto, digamos. Há tanta... nada mais resta a não ser consumi-la a correr. E, neste caso, nunca se passa fome. Mas provoca-me dores de cabeça. Na verdade, sinto-me algo decepcionada relativamente a isto. Perante tanto que vejo e que oiço, não chegando a consciencializar-me efectivamente de quase nada, a não ser daquilo que consigo dolorosamente seleccionar; perante tantos conteúdos que se auto-disponibilizam a cada segundo na atmosfera circundante... a cabeça fica um pouco à roda e os olhos inflamam-se perante tanta imagem. Os sons nem sempre se distinguem com limpidez... E fica a sensação de existir perante um tremendo inatingível... Parece que o humano criou o sobre-humano. Sim, porque é impossível consumir efectivamente e com profundidade tanta informação.

E se Deus é a transcendência... não sei se a actual sociedade da informação criada pelo ser humano não será algo como as antigas e belas catedrais góticas: um impulso para as alturas, para o humanamente impossível...ou seja, uma tentativa de superação das nossas limitações... As novas catedrais góticas constituiram-se, entretanto, enquanto propagação infinita de informação; as magníficas torres góticas são agora as invasões permanentes e incisivas de imagens, sons e ideias esboçadas superficialmente. Hiper-ficheiros informatizados ou em vias de o ser. Dos quais, na sua esmagadora maioria, nunca chegaremos a fazer o download, via rede neuronal. O que não invalida o impacto subconsciente desta informação fragmentada.

E perante este sentimento de impotência que me diz, por ex., ser impossível ler todos os livros que quero ler, entre os tantos que surgem, irrealizável ver todos os filmes que desejo ver, entre os variadíssimos que se disponibilizam, ou mera quimera tentar entender todas as grandes questões que diariamente se assinalam como importantes para a humanidade, assim como todo um etcetera interminável... perante esta limitação e esta percepção da finitude da minha condição humana... o mais estranho ainda é que não posso viver sem tudo isto, sem este infindável ruído, feito eco mesmo ao longo das horas de sono...

Sou filha do meu tempo? Serei... Mas não me é possível "mergulhar nele"... Tudo se transforma vertiginosamente e cada vez mais, aqui à superfície, nada é certo.

(A imagem é Cabeza rafaelesca estallando de Dalí )

sábado, 15 de setembro de 2007

Sonho versus realidade


A inquietação germina quando olhamos à nossa volta e absorvemos o que constitui o nosso mundo.
Gostaria de acreditar ainda nos sonhos. Aqueles que impulsionam para a acção e pelos quais não desistimos de tentar melhorar o mundo.
Utopias para quê?, dirão alguns... Pois a mim parece-me que, em certos dias, em certas horas, só mesmo um pouco de existir utópico nos pode dar o oxigénio de que precisamos para respirar e aqui permanecer.

Absorver o mundo pode ser devastador. Vão-se os sonhos da inocência, os sonhos da infância doce e serena, os sonhos de que existe justiça, os sonhos de que o crime não compensa, os sonhos de que existimos para construir e não para destruir. O sonho de que podemos todos ser um pouco felizes...

A cisão entre sonho e realidade é, hoje, brutal. Viver num mundo paralelo, perfeito e bonitinho, seria fuga. Viver num mundo onde a ilusão já é quase só virtual, é fuga também. A não-fuga implica "pegar" na realidade e transformá-la para a tornar mais humana. Mas, por onde começar? A ruptura do nosso eu interior começa quando tomamos nota do que vai pelo mundo global , a uma escala que hoje é a nossa. Mas onde está a nossa capacidade de intervir nele globalmente? Será que esta nova escala nos endurece tanto que ficamos incapazes de agir?

Como posso ajudar e melhorar a situação de tantas crianças africanas, por ex., que vejo morrer de fome na televisão? Como posso impedir que tanta gente morra num hospital de um lugar recôndito do mundo, sem as condições sanitárias e a dignidade devidas enquanto seres humanos? Como posso conviver com a ideia de que todos os dias, tantas crianças desaparecem no mundo? Como posso sentir a dor de todos e de tantos, quando estou limitada a sentir com autenticidade os casos um a um? É certo que posso fazer alguma coisa, é certo. Mas parece sempre tão pouco... No entanto, sinto que não é permitido desistir.

Pode a dor tornar-se uma mera abstracção?
Como lidar com o irracional que permanentemente parece irromper na nossa condição de seres racionais?
Gostava que um pouco mais de sonho civilizacional penetrasse na realidade...
Como disse o nosso poeta António Gedeão:

"(...) sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança..."

( A imagem é de autor desconhecido)

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

O que encontro hilariante...


Bom, é verdade, raras vezes me deparo com algo do domínio do verdadeiramente hilariante. Mas quando acontece, fico simplesmente...feliz! Como já se sabe, rir pode ser o melhor remédio. Mas encontrar do que rir pode ser difícil! Ou não. Não, quando nos deparamos com alguém que sabe "caçar" bem as fragilidades dos seres humanos, incluindo as suas. E não importa a idade. O humor pode ser muito espontâneo mas também muito refinado.
Certo, certo é que me tenho rido. E mesmo à gargalhada! Valham-me coisas destas para revigorar a proximidade do Outono, os dias mais pequenos, no que se refere a luz solar. Mas maiores quanto a tarefas e obrigações...
Há pequenas coisas da vida que dão infinito prazer. E quando o hilariante coincide com o pertinente: eis o brilhante!

O que vale a pena,
vale...

"(...) saía eu da loja de novidades Hammacher Schlemmer, consumido pela indecisão entre comprar uma prensa de patos computorizada ou a melhor guilhotina portátil do mundo, quando embati, qual Titanic, num velho icebergue que conhecera na faculdade, o Max Endorfina. (...) lançou-se no relato da sua recente boa estrela.
-O que eu te posso dizer, meu menino, é que acertei em cheio. Entrei em contacto com o meu eu espiritual interior, e a partir daí foi só farturar.
-És capaz de ser mais específico? - inquiri (...).
-Se calhar não devia estar para aqui a palrar com alguém de frequência inferior, mas, sendo nós velhos amigos...
-Frequência?
-Estou a falar de dimensões. Aqueles de nós que se movimentam nas oitavas superiores são aconselhados a não esbanjar iões saudáveis em trogloditas mortais, no rol dos quais tu te incluis - sem ofensa. (...)
Ainda me beliscava quando Endorfina deu início à sua história.




- OK - disse ele. Flashback para há seis meses atrás, quando o rapazinho da Sra. Endorfina, aqui o Max, andava em bolandas, emocionalmente falando, devido a uma série de atribulações, (...). Primeiro, uma coisinha fofa da Formosa a quem eu andava a dar um curso de anatomia hidráulica dá-me com os pés, trocando-me por um aprendiz de pasteleiro; de seguida, sou processado numa soma equivalente a muitos presidentes mortos por fazer marcha atrás com o meu Jaguar contra uma Sala de Leitura de Cientologia. Acrescente-se a isso que o meu único filho de um anterior holocausto conubial desiste do seu lucrativo escritório de advocacia para se tornar ventríloquo.

Por isso, ali estava eu, deprimido e assustado, esquadrinhando a cidade em busca de uma raison d'être, um centro espiritual, por assim dizer, quando, subitamente, saído do éter, deparo com um anúncio no último número da Vibes Illustrated. Um estaminé tipo spa, que faz a liposucção do nosso mau karma, conduzindo-nos a uma frequência superior, na qual podemos por fim exercer o nosso controle sobre a natureza, à la Fausto. Como regra geral, não sou muito dado a morder o isco em esquemas manhosos destes, (...) digo cá para comigo: o que é que pode correr mal? Ainda por cima é de borla. Não pedem guito. O sistema baseia-se numa variante da escravatura, mas, em troca, recebemos uns cristais que nos concedem certos e determinados poderes, e toda a erva-de-São-João que sejamos capazes de engolir. Ah, não estou a mencionar que ela humilha-nos. Mas faz parte da terapia. (...)

É claro que fui o bombo da festa durante um bocado, mas, deixa-me dizer-te, aquilo anulou-me o ego. De repente, apercebi-me de que tinha vivido em vidas anteriores - primeiro como um simples burgomestre, e depois como Lucas Cranach, o Velho... ou não, já não me lembro, talvez fosse o Puto. Mas enfim, quando dou por ela, acordo na minha enxerga grosseira e a minha frequência, upa-upa na estratosfera. Tenho, tipo, um nimbo em redor do meu ócciput e sou omnisciente. Quero dizer, acerto finalmente no duplo em Belmont e ao fim de uma semana já reúno multidões de cada vez que apareço no Bellagio em Las Vegas. Se calha estar inseguro acerca dum cavalo, ou se estou indeciso em pedir cartas ou passar, no blackjack, há um consórcio de anjos com quem entro em contacto. Naquela, lá porque alguém tem asas e é feito de ectoplasma, não quer dizer que não possa dar palpites. (...)

-E ela não se faz pagar por esse serviço? - inquiri, com o coração a abrir as asas como um falcão-peregrino.
-Bem, sabes como é, os avatares são assim. São todos uns bacanos.

Nessa noite, (...) dei comigo a voar para oeste, em direcção ao Centro da Ascensão Sublime e à sua divindade residente, (...).
-Quer dizer, queres entrar em contacto com o teu centro espiritual.
-Exactamente. Queria aumentar de frequência, e queria ser capaz de levitar, teletransportar-me, desmaterializar-me, e possuir suficiente omnisciência para adivinhar antecipadamente os numerais aleatoriamente seleccionados que constituem a lotaria do Estado de Nova Iorque.



(...) As humilhações sucediam-se como parte de um ritual de purificação do ego e, finalmente, quando foi decretado que eu iria fazer amor com uma sacerdotisa kármica que era uma sósia do Bill Parcell, decidi que estava na hora de encerrar a actividade. Rastejando de costas sob a vedação de arame farpado, dei de frosques a meio da noite e mandei parar o último 747 para o Upper West Side.

-E então - disse a minha mulher, com a tolerância benigna de quem se dirige a alguém prematuramente senil -, desmaterializaste-te e teletransportaste-te para aqui, ou isso é um guardanapo de cocktail da Continental Airlines(...)?
-Não fiquei tempo suficiente para isso - respondi, (...), mas suei o suficiente para aprender este pequeno tour de force. - E isto dizendo, pus-me a levitar quinze centímetros acima do soalho, pairando, enquanto a boca dela se lhe abria como a do protagonista no Tubarão. (...)
-Os teus amigos de baixa frequência simplesmente não percebem - disse eu, (...). Foi neste momento que comecei a aperceber-me de que não conseguia descer (...).

Segundo as últimas notícias que me chegaram, Max Endorfina desmaterializou-se para nunca mais se rematerializar. Quanto a Galaxie Sunstroke e ao seu Centro de Ascensão Sublime, dizem os rumores que foram desmantelados por inspectores das Finanças e posteriormente reencarnados - ou terá sido reencarcerados? (...)."

in Errar é humano - flutuar é divino, Woody Allen, Pura Anarquia

(Imagens: daqui daqui
e daqui )

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Pavarotti...



(Imagem: retrato de Pavarotti, pintado por Nelson Shanks )

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Burocracia divina



(Imagem daqui )

domingo, 2 de setembro de 2007

Acredita em Deus? (3)


Termino (por agora...) esta minha pequena reflexão sobre o "divino" com uma última referência, desta vez a Paul Auster. Que responde ele a esta questão, como se posiciona face ao tema...? Assinalo que, apesar de toda a minha admiração por ele, como desde sempre tem ficado evidente, apesar disso e embora concorde inteiramente com muitas das apreciações que faz... a minha posição, relativamente ao tema, situa-se na linha da de Michael Cunningham.

O tema ou a hipótese da transcendência não é de hoje, obviamente. É de sempre. O que significa um alheamento profundo do passado, mas também da actualidade, não o pensarmos renovadamente. O fenómeno religioso tem hoje implicações novas, por exemplo, ligadas à violência. Novas embora reproduzindo, em grande medida, o passado. Passado este no qual, em nome de Deus, se incrementou a violência a vários níveis. O modo como ela hoje lhe está associada tem outros contornos, os da nossa época.

Nem a propósito, oiço a notícia de que deflagrou nova polémica a propósito de uma caricatura sobre o islamismo, desta vez na Suécia. Como encarar este tipo de acontecimentos? E sobretudo, como viver em paz?
Por outro lado, e relativamente ao mesmo, temos agora acesso a novos escritos da Madre Teresa de Calcutá, pelos quais ficamos a saber que inúmeras vezes se interrogou e chegou a duvidar da existência de Deus. O livro está aí muito em breve mesmo, e é mais um convite à reflexão sobre o tema. Acreditar pode implicar justificações, mas não acreditar também as pode exigir. É o que penso.

Diz Paul Auster acerca de Deus e da religião (entrevistado por Antonio Monda):

"Passemos sem rodeios à pergunta fundamental: acreditas que Deus existe?
- Não, não acredito. Mas isso não quer dizer que não considere a religião um elemento culturalmente fundamental da existência.
Porque definiste a religião como um elemento fundamental da existência?
- Porque só um ignorante poderia dizer o contrário, e basta estudar a história para nos darmos conta disso. No que me diz respeito, quis aprofundar o Antigo e o Novo Testamentos e confrontar-me com aquilo que eles ensinam.
(...)
O que foi que, a partir dos catorze anos, deixou de te convencer?
- O facto de existir um ser omnipotente responsável por todas as coisas criadas. Mas tive - e continuo a ter - muitos problemas com a religião organizada.
Julgas que se trata de uma coisa negativa?
- Não em si mesma. No entanto, creio que as religiões se mancharam, cada uma na sua própria história, com muitos erros. Pense-se em quantas vezes foi usado o nome de Deus para conquistar ou para matar. Pense-se na Inquisição, na expulsão dos judeus de Espanha, ou nos conflitos entre hindus e muçulmanos. Hoje, nas religiões, assusta-me a tendência fundamentalista e vejo à minha volta um mundo cada vez mais cheio de fanáticos. O problema do absolutismo é que nos leva a ficarmos convencidos de que somos depositários da verdade. Quando partimos desse pressuposto, abrimos a porta a algumas prevaricações e desumanizamos os que são diferentes de nós.
(...)
Quais são os efeitos benéficos [da religião] que mais aprecias?
- O conforto que a religião pode dar a quem se sente angustiado perante o sofrimento ou o mistério. Mas também este aspecto traz consigo o risco da ilusão.

No início do livro, o Nathan de As Loucuras de Brooklyn procura «um fim silencioso para a minha vida triste e ridícula», enquanto que, no final, se proclama «o homem mais feliz que alguma vez viveu». De um ponto de vista de percurso interior, o que há aqui de diferente do que acontece ao George Bailey de Do Céu Caiu Uma Estrela?
-O facto de a proclamação de felicidade de Nathan acontecer na manhã do dia 11 de Setembro, poucos minutos antes dos ataques terroristas.
O filme de Capra não exclui de todo novas dores ou novas tragédias.
- Sei-o muito bem, mas ele era católico e sabia o que eram a graça e a providência. Eu, em contrapartida, vejo na coincidência entre as declarações de felicidade e a iminência da tragédia um mistério insondável."

Sobre Antonio Monda: Docente de Realização Cinematográfica na Universidade de Nova Iorque, colabora na secção de cultura do jornal italiano La Repubblica e é crítico cinematográfico de La Rivista dei Libri. Realizador de documentários e uma longa metragem (Dicembre), é também organizador de festivais e eventos no Guggenheim Museum e noutras importantes instituições culturais dos Estados Unidos.

(Imagens: "Promessas" de José Malhoa e fotografia de Paul Auster - autor desconhecido)

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Acredita em Deus? (2)


Retomando a questão, esta interrogação que pode surgir como incómoda, eventualmente desnecessária... parece, no entanto, ser útil para quebrar tabus de origem nebulosa, vaga e, por vezes, inquietante. Neste tempo de surgimento e ressurgimento de diversas religiões ou religiosidades, na era em que todos os fenómenos têm influência à escala global, na época das sociedades da abundância e do consumismo onde algo parece faltar... tudo parece convergir para uma (nova) busca espiritual. Que fundamentos pode ter ou tem esta atitude, que vectores de progresso ou retrocesso ela indica e implica, tudo isto e tanto mais... constitui motivo mais do que suficiente para trazer esta questão à ordem do dia. No mínimo, é razão suficiente para a pensarmos.

Em resposta à questão "Acredita em Deus?", esta é a resposta de Spike Lee (entrevistado por Antonio Monda):
(tornou-se, para mim, um realizador de cinema a não esquecer, desde o dia em que vi "25 th hour" - a não perder)

"Regressemos por um momento ao cinema: qual é o primeiro filme que te vem à ideia em que esteja presente uma forte aspiração espiritual?
- Seguramente, Há Lodo no Cais.
É um grande filme, extremamente controverso...
- A controvérsia e a antipatia com que um certo mundo o vê deve-se à posição de Elia Kazan acerca do maccartismo. Mas isso nada tem a ver com o lado espiritual do filme; antes de mais nada, Há Lodo no Cais é uma história de redenção e salvação contada admiravelmente e com enorme paixão. Como homem de cinema, sempre admirei a grandeza da realização, da interpretação e do argumento de Budd Schulberg. Mas o filme tem sobretudo uma dimensão espiritual, e não esqueçamos que há a figura fundamental do sacerdote, interpretado por Karl Malden. (...)
(...)
O que representa para ti a fé?
- Algo que eu não tenho.
E a religião?
- Algo demasiado humano, que interpreta e por vezes desvirtua a espiritualidade.
(...)
Já alguma vez sentiste a presença de Deus na vida quotidiana?
- Sinto uma presença superior, que não sei se definiria como Deus, quando estou com a minha mulher e os meus filhos. Acredito firmemente na família, (...). E creio que o homem é instintivamente levado para o bem, e sabe o que é certo e o que é errado.
Como explicas então os momentos abomináveis da história, como, por exemplo, o Holocausto e a escravatura?
- Os homens são frágeis e imperfeitos e podem cometer erros terríveis. Tragédias e horrores como os que citaste fazem parte da experiência humana. O homem pode chegar ao bem percorrendo um caminho difícil, ao longo do qual fica exposta toda a sua fragilidade.


Julgas que é possível julgar uma obra prescindindo daquilo que ela conta?
- Sim, embora seja uma coisa que admito com pena.
Que queres dizer?
- Que, por exemplo, Leni Riefenstahl era uma grande realizadora, ainda hoje estudada e imitada (pense-se na Guerra das Estrelas), mas aquilo que contava era abominável. Pense-se também em D. W. Griffith: ninguém discute que O Nascimento de Uma Nação é uma pedra angular, mas é também uma exaltação do racismo mais violento e visceral, e durante a própria realização do filme foram cometidas muitas atrocidades contra as pessoas de cor. (...) Regressando, portanto, ao nosso discurso inicial, penso que a arte representa a tentativa humana de se sublimar, e carrega as fraquezas dos seus autores. Mas o resultado oferece-nos muitas vezes a intuição da perfeição. Talvez mesmo de Deus."
in Acreditas? conversas sobre Deus e a religião, Antonio Monda

( Imagens: "Anjo Ferido" de Hugo Simberg e fotografia de Spike Lee daqui )

domingo, 26 de agosto de 2007

Acredita em Deus? (1)


Esta questão é de sempre e continuará a ser... Há quem se lembre ainda de a colocar abertamente e há também quem lhe dê respostas de interesse inesgotável. Crentes ou não crentes, como saber claramente se o somos ou não? Como descrever a nossa posição face a essa interrogação perene, com as melhores e as mais adequadas palavras? As que traduzam os nossos pensamentos sobre o tema mas também aquelas que espelhem as nossas emoções, face à vida e face ao seu reverso; face a um possível "Criador" ou perante um universo sem nada dessa dimensão...
Esta é a resposta de Michael Cunningham (entrevistado por Antonio Monda) :

"Acredita em Deus?
Vejo que começamos logo pela Grande Pergunta. A parte mais séria de mim mesmo, aquela que está seriamente intencionada a não se deixar apanhar desprevenida por ninguém, diz: «Que esperas? Admite-o: Deus é uma coisa que inventámos para podermos conviver com a consciência da nossa mortalidade.» Os cães e os gatos pensam que vão viver para sempre, e não têm nenhum deus. Não consigo deixar de notar que as únicas espécies conscientes, desde o início, do facto de que um dia deixarão de viver são aquelas que erguem catedrais e organizam procissões com estátuas vestidas com túnicas. Mas, ao mesmo tempo, um universo que não contemple uma inteligência harmónica e superior de qualquer tipo é algo tão estéril... (...) É fácil, especialmente quando envelhecemos, orgulharmo-nos de nós mesmos devido à capacidade que temos de ver através de tudo, mas quando conseguimos ver através de tudo, encontramos o nada. E pergunto-me se eu, ou quem quer que seja, desejarei sincera e realmente ver-me assim tão desiludido por viver num mundo inteiramente desprovido de qualquer elemento de magia ou de mistério...


Michael Cunningham

Quando era criança, tinha um jogo chamado Magic Eight Ball. Era uma bola de plástico, parecida com uma bola de bilhar, mas grande como uma toranja, à qual se podia fazer perguntas, depois de a agitar com força. Numa janelinha de cor violeta apareciam oito respostas diferentes, e lembro-me de que uma delas era: «Resposta nebulosa: tenta mais tarde». Assim, prefiro citar este meu oráculo de infância, e à sua pergunta respondo: «Resposta nebulosa; tente mais tarde». Ou, se quiser que responda à pergunta numa perspectiva ligeiramente mais adulta: suspeito de que existem relações profundas e ainda não descobertas entre Deus e os princípios da física. E eu acredito na física."

in Acreditas? conversas sobre Deus e a religião, Antonio Monda

(Imagens: "Praying Hands" de Albrecht Dürer e fotografia de Michael Cunningham daqui )

sábado, 18 de agosto de 2007

Da cor... ou não


"(...) É conhecida a acção da luz sobre os corpos e que a cromoterapia utiliza. Tem-se tentado aproveitar a força da cor no tratamento de doenças nervosas. Foi observado que a luz vermelha é tonificante para o coração, e que o azul, pelo contrário, inibe os movimentos e pode mesmo chegar a paralisá-los. Mas, dado que nos animais e até mesmo nas plantas se observam efeitos idênticos, a explicação por associação fica anulada. De qualquer modo, este facto demonstra que a cor exerce uma força real, ainda que mal conhecida, e que pode agir sobre todo o corpo humano.
A associação em si mesma parece-nos insuficiente para explicar a acção da cor sobre a alma. No entanto, a cor é um meio para exercer uma influência directa sobre a alma. A cor é a tecla; o olho, o martelo. A alma, o instrumento das mil cordas.
O artista é a mão que, ao tocar nesta ou naquela tecla, obtém da alma a vibração justa.
A harmonia das cores baseia-se exclusivamente no princípio do contacto eficaz. A alma humana, tocada no seu ponto mais sensível, responde.
A este fundamento, chamaremos o Princípio da Necessidade Interior."
Wassily Kandinsky, Do Espiritual na Arte



Fico sempre espantada comigo mesma no que se refere aos efeitos das cores no meu estado de espírito. É-me difícil imaginar a vida num mundo onde a cor estivesse ausente. Bom, na verdade, sou capaz de imaginar um mundo descolorido mas imagino também, por outro lado, que não sobreviveria muito tempo nele. Adoro as cores e as suas nuances, os seus matizes, as suas possíveis combinações, os seus contrastes... E preciso de tudo isso. Existem terapias espontâneas!
No entanto, assim como preciso das cores e das suas tonalidades, também sinto grande afinidade com o universo do «somente preto e branco»... Suponho que, em cada caso, tudo se relacione com o jogo existente entre os diversos elementos presentes e que contribuem para o efeito do chamado prazer estético. O prazer da cor, certamente, e o prazer... ora da ausência total de luz, ora da presença de luz pura, assim como o jogo dos seus contrastes.
Um bom exemplo, deste último tipo de fruição estética, é o caso dos filmes a preto e branco. Sendo filmes dignos de registo, nunca deixam de ser elegantes e especiais, resultando num genuíno prazer do olhar. Resulta este último deleite, provavelmente, de uma simbólica prática conceptual pela qual se realiza uma pura ruptura cromática com o real (i.e.uma abstracção). Real este que é, apesar de tudo, essa nossa dimensão onde o jogo da luz e da cor pode ser, de forma imediata, uma fonte inesgotável de prazer para a nossa percepção.
Cabe à arte alargar os horizontes da percepção humana, a cores ou a «preto e branco»... Na verdade, só pela arte tudo se torna possível...

(Imagens: pinturas de Kandinsky, Estudo da Cor e Trente )

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Praias

Uma praia é um dos lugares onde se deveria poder desfrutar da sensação de liberdade.
A praia que admiro é algo assim...como Courbet a pintou e como a magnífica Sophia a "enfeitou".


Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Como aceitar hoje, sem algum espanto, o facto de que, em tempos, as pessoas procuravam a beira-mar, passeando e fazendo vida social, completamente vestidas, a rigor e a preceito?! Outros tempos, outras sensações, vividas com a mesma intensidade, certamente. Mas tão longe do visual bronzeado que agora é admirado...!

(Imagens: pinturas de Gustave Courbet e de Eugène Boudin)

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

10 Filmes: 10 realizadores

Uma boa forma de repensar o cinema que nos influenciou e que não é possível esquecer de múltiplas formas e por múltiplos motivos é responder ao repto lançado pelo Lauro António Apresenta e pelo Detesto Sopa.

Aqui se seguem 10 filmes e respectivos realizadores que assinalo como dos melhores, mais interessantes e muito especiais, na minha perspectiva. É uma escolha muito pessoal, como não podia deixar de ser, e obedece, portanto, obviamente, a afectos e interesses que se foram criando e desenvolvendo, ao longo do tempo, no que se refere à minha relação com a maravilhosa Sétima Arte.

Foi terrível deixar tantos de fora, nesta selecção! Muito difícil mesmo...Muito, muito, muito difícil mesmo...


Victor Fleming



Luchino Visconti




Elia Kazan




Stanley Kubric




Ingmar Bergman



Woody Allen




Quentin Tarantino




Jane Campion




David Lynch





quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Animação!

Mais um desafio ao qual dá gosto responder! Desta vez veio do "Não há nada como o realmente" e conduz à selecção de séries de animação que consideramos memoráveis... A verdade é que sou fã de animação. Portanto, diverti-me imenso a recordar todas as séries que muita alegria me proporcionaram e que considero admiráveis, enquanto procurava seleccionar 5 para assinalar aqui. É claro que fiquei com imensa pena de não referir todas as outras especiais para mim. Mas... procurando seguir a ideia sugerida por este desafio, aqui ficam as minhas 5 inesquecíveis.

Speedy Gonzales



Woody Woodpecker



Popeye



The Simpsons



The Flinstones


Obrigada pela excelente ideia ao "Não há nada como o realmente"!