domingo, 2 de setembro de 2007

Acredita em Deus? (3)


Termino (por agora...) esta minha pequena reflexão sobre o "divino" com uma última referência, desta vez a Paul Auster. Que responde ele a esta questão, como se posiciona face ao tema...? Assinalo que, apesar de toda a minha admiração por ele, como desde sempre tem ficado evidente, apesar disso e embora concorde inteiramente com muitas das apreciações que faz... a minha posição, relativamente ao tema, situa-se na linha da de Michael Cunningham.

O tema ou a hipótese da transcendência não é de hoje, obviamente. É de sempre. O que significa um alheamento profundo do passado, mas também da actualidade, não o pensarmos renovadamente. O fenómeno religioso tem hoje implicações novas, por exemplo, ligadas à violência. Novas embora reproduzindo, em grande medida, o passado. Passado este no qual, em nome de Deus, se incrementou a violência a vários níveis. O modo como ela hoje lhe está associada tem outros contornos, os da nossa época.

Nem a propósito, oiço a notícia de que deflagrou nova polémica a propósito de uma caricatura sobre o islamismo, desta vez na Suécia. Como encarar este tipo de acontecimentos? E sobretudo, como viver em paz?
Por outro lado, e relativamente ao mesmo, temos agora acesso a novos escritos da Madre Teresa de Calcutá, pelos quais ficamos a saber que inúmeras vezes se interrogou e chegou a duvidar da existência de Deus. O livro está aí muito em breve mesmo, e é mais um convite à reflexão sobre o tema. Acreditar pode implicar justificações, mas não acreditar também as pode exigir. É o que penso.

Diz Paul Auster acerca de Deus e da religião (entrevistado por Antonio Monda):

"Passemos sem rodeios à pergunta fundamental: acreditas que Deus existe?
- Não, não acredito. Mas isso não quer dizer que não considere a religião um elemento culturalmente fundamental da existência.
Porque definiste a religião como um elemento fundamental da existência?
- Porque só um ignorante poderia dizer o contrário, e basta estudar a história para nos darmos conta disso. No que me diz respeito, quis aprofundar o Antigo e o Novo Testamentos e confrontar-me com aquilo que eles ensinam.
(...)
O que foi que, a partir dos catorze anos, deixou de te convencer?
- O facto de existir um ser omnipotente responsável por todas as coisas criadas. Mas tive - e continuo a ter - muitos problemas com a religião organizada.
Julgas que se trata de uma coisa negativa?
- Não em si mesma. No entanto, creio que as religiões se mancharam, cada uma na sua própria história, com muitos erros. Pense-se em quantas vezes foi usado o nome de Deus para conquistar ou para matar. Pense-se na Inquisição, na expulsão dos judeus de Espanha, ou nos conflitos entre hindus e muçulmanos. Hoje, nas religiões, assusta-me a tendência fundamentalista e vejo à minha volta um mundo cada vez mais cheio de fanáticos. O problema do absolutismo é que nos leva a ficarmos convencidos de que somos depositários da verdade. Quando partimos desse pressuposto, abrimos a porta a algumas prevaricações e desumanizamos os que são diferentes de nós.
(...)
Quais são os efeitos benéficos [da religião] que mais aprecias?
- O conforto que a religião pode dar a quem se sente angustiado perante o sofrimento ou o mistério. Mas também este aspecto traz consigo o risco da ilusão.

No início do livro, o Nathan de As Loucuras de Brooklyn procura «um fim silencioso para a minha vida triste e ridícula», enquanto que, no final, se proclama «o homem mais feliz que alguma vez viveu». De um ponto de vista de percurso interior, o que há aqui de diferente do que acontece ao George Bailey de Do Céu Caiu Uma Estrela?
-O facto de a proclamação de felicidade de Nathan acontecer na manhã do dia 11 de Setembro, poucos minutos antes dos ataques terroristas.
O filme de Capra não exclui de todo novas dores ou novas tragédias.
- Sei-o muito bem, mas ele era católico e sabia o que eram a graça e a providência. Eu, em contrapartida, vejo na coincidência entre as declarações de felicidade e a iminência da tragédia um mistério insondável."

Sobre Antonio Monda: Docente de Realização Cinematográfica na Universidade de Nova Iorque, colabora na secção de cultura do jornal italiano La Repubblica e é crítico cinematográfico de La Rivista dei Libri. Realizador de documentários e uma longa metragem (Dicembre), é também organizador de festivais e eventos no Guggenheim Museum e noutras importantes instituições culturais dos Estados Unidos.

(Imagens: "Promessas" de José Malhoa e fotografia de Paul Auster - autor desconhecido)

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Acredita em Deus? (2)


Retomando a questão, esta interrogação que pode surgir como incómoda, eventualmente desnecessária... parece, no entanto, ser útil para quebrar tabus de origem nebulosa, vaga e, por vezes, inquietante. Neste tempo de surgimento e ressurgimento de diversas religiões ou religiosidades, na era em que todos os fenómenos têm influência à escala global, na época das sociedades da abundância e do consumismo onde algo parece faltar... tudo parece convergir para uma (nova) busca espiritual. Que fundamentos pode ter ou tem esta atitude, que vectores de progresso ou retrocesso ela indica e implica, tudo isto e tanto mais... constitui motivo mais do que suficiente para trazer esta questão à ordem do dia. No mínimo, é razão suficiente para a pensarmos.

Em resposta à questão "Acredita em Deus?", esta é a resposta de Spike Lee (entrevistado por Antonio Monda):
(tornou-se, para mim, um realizador de cinema a não esquecer, desde o dia em que vi "25 th hour" - a não perder)

"Regressemos por um momento ao cinema: qual é o primeiro filme que te vem à ideia em que esteja presente uma forte aspiração espiritual?
- Seguramente, Há Lodo no Cais.
É um grande filme, extremamente controverso...
- A controvérsia e a antipatia com que um certo mundo o vê deve-se à posição de Elia Kazan acerca do maccartismo. Mas isso nada tem a ver com o lado espiritual do filme; antes de mais nada, Há Lodo no Cais é uma história de redenção e salvação contada admiravelmente e com enorme paixão. Como homem de cinema, sempre admirei a grandeza da realização, da interpretação e do argumento de Budd Schulberg. Mas o filme tem sobretudo uma dimensão espiritual, e não esqueçamos que há a figura fundamental do sacerdote, interpretado por Karl Malden. (...)
(...)
O que representa para ti a fé?
- Algo que eu não tenho.
E a religião?
- Algo demasiado humano, que interpreta e por vezes desvirtua a espiritualidade.
(...)
Já alguma vez sentiste a presença de Deus na vida quotidiana?
- Sinto uma presença superior, que não sei se definiria como Deus, quando estou com a minha mulher e os meus filhos. Acredito firmemente na família, (...). E creio que o homem é instintivamente levado para o bem, e sabe o que é certo e o que é errado.
Como explicas então os momentos abomináveis da história, como, por exemplo, o Holocausto e a escravatura?
- Os homens são frágeis e imperfeitos e podem cometer erros terríveis. Tragédias e horrores como os que citaste fazem parte da experiência humana. O homem pode chegar ao bem percorrendo um caminho difícil, ao longo do qual fica exposta toda a sua fragilidade.


Julgas que é possível julgar uma obra prescindindo daquilo que ela conta?
- Sim, embora seja uma coisa que admito com pena.
Que queres dizer?
- Que, por exemplo, Leni Riefenstahl era uma grande realizadora, ainda hoje estudada e imitada (pense-se na Guerra das Estrelas), mas aquilo que contava era abominável. Pense-se também em D. W. Griffith: ninguém discute que O Nascimento de Uma Nação é uma pedra angular, mas é também uma exaltação do racismo mais violento e visceral, e durante a própria realização do filme foram cometidas muitas atrocidades contra as pessoas de cor. (...) Regressando, portanto, ao nosso discurso inicial, penso que a arte representa a tentativa humana de se sublimar, e carrega as fraquezas dos seus autores. Mas o resultado oferece-nos muitas vezes a intuição da perfeição. Talvez mesmo de Deus."
in Acreditas? conversas sobre Deus e a religião, Antonio Monda

( Imagens: "Anjo Ferido" de Hugo Simberg e fotografia de Spike Lee daqui )

domingo, 26 de agosto de 2007

Acredita em Deus? (1)


Esta questão é de sempre e continuará a ser... Há quem se lembre ainda de a colocar abertamente e há também quem lhe dê respostas de interesse inesgotável. Crentes ou não crentes, como saber claramente se o somos ou não? Como descrever a nossa posição face a essa interrogação perene, com as melhores e as mais adequadas palavras? As que traduzam os nossos pensamentos sobre o tema mas também aquelas que espelhem as nossas emoções, face à vida e face ao seu reverso; face a um possível "Criador" ou perante um universo sem nada dessa dimensão...
Esta é a resposta de Michael Cunningham (entrevistado por Antonio Monda) :

"Acredita em Deus?
Vejo que começamos logo pela Grande Pergunta. A parte mais séria de mim mesmo, aquela que está seriamente intencionada a não se deixar apanhar desprevenida por ninguém, diz: «Que esperas? Admite-o: Deus é uma coisa que inventámos para podermos conviver com a consciência da nossa mortalidade.» Os cães e os gatos pensam que vão viver para sempre, e não têm nenhum deus. Não consigo deixar de notar que as únicas espécies conscientes, desde o início, do facto de que um dia deixarão de viver são aquelas que erguem catedrais e organizam procissões com estátuas vestidas com túnicas. Mas, ao mesmo tempo, um universo que não contemple uma inteligência harmónica e superior de qualquer tipo é algo tão estéril... (...) É fácil, especialmente quando envelhecemos, orgulharmo-nos de nós mesmos devido à capacidade que temos de ver através de tudo, mas quando conseguimos ver através de tudo, encontramos o nada. E pergunto-me se eu, ou quem quer que seja, desejarei sincera e realmente ver-me assim tão desiludido por viver num mundo inteiramente desprovido de qualquer elemento de magia ou de mistério...


Michael Cunningham

Quando era criança, tinha um jogo chamado Magic Eight Ball. Era uma bola de plástico, parecida com uma bola de bilhar, mas grande como uma toranja, à qual se podia fazer perguntas, depois de a agitar com força. Numa janelinha de cor violeta apareciam oito respostas diferentes, e lembro-me de que uma delas era: «Resposta nebulosa: tenta mais tarde». Assim, prefiro citar este meu oráculo de infância, e à sua pergunta respondo: «Resposta nebulosa; tente mais tarde». Ou, se quiser que responda à pergunta numa perspectiva ligeiramente mais adulta: suspeito de que existem relações profundas e ainda não descobertas entre Deus e os princípios da física. E eu acredito na física."

in Acreditas? conversas sobre Deus e a religião, Antonio Monda

(Imagens: "Praying Hands" de Albrecht Dürer e fotografia de Michael Cunningham daqui )

sábado, 18 de agosto de 2007

Da cor... ou não


"(...) É conhecida a acção da luz sobre os corpos e que a cromoterapia utiliza. Tem-se tentado aproveitar a força da cor no tratamento de doenças nervosas. Foi observado que a luz vermelha é tonificante para o coração, e que o azul, pelo contrário, inibe os movimentos e pode mesmo chegar a paralisá-los. Mas, dado que nos animais e até mesmo nas plantas se observam efeitos idênticos, a explicação por associação fica anulada. De qualquer modo, este facto demonstra que a cor exerce uma força real, ainda que mal conhecida, e que pode agir sobre todo o corpo humano.
A associação em si mesma parece-nos insuficiente para explicar a acção da cor sobre a alma. No entanto, a cor é um meio para exercer uma influência directa sobre a alma. A cor é a tecla; o olho, o martelo. A alma, o instrumento das mil cordas.
O artista é a mão que, ao tocar nesta ou naquela tecla, obtém da alma a vibração justa.
A harmonia das cores baseia-se exclusivamente no princípio do contacto eficaz. A alma humana, tocada no seu ponto mais sensível, responde.
A este fundamento, chamaremos o Princípio da Necessidade Interior."
Wassily Kandinsky, Do Espiritual na Arte



Fico sempre espantada comigo mesma no que se refere aos efeitos das cores no meu estado de espírito. É-me difícil imaginar a vida num mundo onde a cor estivesse ausente. Bom, na verdade, sou capaz de imaginar um mundo descolorido mas imagino também, por outro lado, que não sobreviveria muito tempo nele. Adoro as cores e as suas nuances, os seus matizes, as suas possíveis combinações, os seus contrastes... E preciso de tudo isso. Existem terapias espontâneas!
No entanto, assim como preciso das cores e das suas tonalidades, também sinto grande afinidade com o universo do «somente preto e branco»... Suponho que, em cada caso, tudo se relacione com o jogo existente entre os diversos elementos presentes e que contribuem para o efeito do chamado prazer estético. O prazer da cor, certamente, e o prazer... ora da ausência total de luz, ora da presença de luz pura, assim como o jogo dos seus contrastes.
Um bom exemplo, deste último tipo de fruição estética, é o caso dos filmes a preto e branco. Sendo filmes dignos de registo, nunca deixam de ser elegantes e especiais, resultando num genuíno prazer do olhar. Resulta este último deleite, provavelmente, de uma simbólica prática conceptual pela qual se realiza uma pura ruptura cromática com o real (i.e.uma abstracção). Real este que é, apesar de tudo, essa nossa dimensão onde o jogo da luz e da cor pode ser, de forma imediata, uma fonte inesgotável de prazer para a nossa percepção.
Cabe à arte alargar os horizontes da percepção humana, a cores ou a «preto e branco»... Na verdade, só pela arte tudo se torna possível...

(Imagens: pinturas de Kandinsky, Estudo da Cor e Trente )

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Praias

Uma praia é um dos lugares onde se deveria poder desfrutar da sensação de liberdade.
A praia que admiro é algo assim...como Courbet a pintou e como a magnífica Sophia a "enfeitou".


Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen


Como aceitar hoje, sem algum espanto, o facto de que, em tempos, as pessoas procuravam a beira-mar, passeando e fazendo vida social, completamente vestidas, a rigor e a preceito?! Outros tempos, outras sensações, vividas com a mesma intensidade, certamente. Mas tão longe do visual bronzeado que agora é admirado...!

(Imagens: pinturas de Gustave Courbet e de Eugène Boudin)

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

10 Filmes: 10 realizadores

Uma boa forma de repensar o cinema que nos influenciou e que não é possível esquecer de múltiplas formas e por múltiplos motivos é responder ao repto lançado pelo Lauro António Apresenta e pelo Detesto Sopa.

Aqui se seguem 10 filmes e respectivos realizadores que assinalo como dos melhores, mais interessantes e muito especiais, na minha perspectiva. É uma escolha muito pessoal, como não podia deixar de ser, e obedece, portanto, obviamente, a afectos e interesses que se foram criando e desenvolvendo, ao longo do tempo, no que se refere à minha relação com a maravilhosa Sétima Arte.

Foi terrível deixar tantos de fora, nesta selecção! Muito difícil mesmo...Muito, muito, muito difícil mesmo...


Victor Fleming



Luchino Visconti




Elia Kazan




Stanley Kubric




Ingmar Bergman



Woody Allen




Quentin Tarantino




Jane Campion




David Lynch





quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Animação!

Mais um desafio ao qual dá gosto responder! Desta vez veio do "Não há nada como o realmente" e conduz à selecção de séries de animação que consideramos memoráveis... A verdade é que sou fã de animação. Portanto, diverti-me imenso a recordar todas as séries que muita alegria me proporcionaram e que considero admiráveis, enquanto procurava seleccionar 5 para assinalar aqui. É claro que fiquei com imensa pena de não referir todas as outras especiais para mim. Mas... procurando seguir a ideia sugerida por este desafio, aqui ficam as minhas 5 inesquecíveis.

Speedy Gonzales



Woody Woodpecker



Popeye



The Simpsons



The Flinstones


Obrigada pela excelente ideia ao "Não há nada como o realmente"!