segunda-feira, 28 de maio de 2007

Leituras: Hotel Memória


Sobre o autor: João Tordo nasceu em Lisboa em 1975. Formou-se em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa e estudou Jornalismo em Londres, tendo vivido nesta cidade entre 1999 e 2002. Também morou em Nova Iorque entre 2002 e 2004, onde estudou Creative Writing no City College of New York. Actualmente, vive em Lisboa e trabalha como jornalista. Foi vencedor do prémio Jovens Criadores em 2001. O seu primeiro romance, O Livro dos Homens Sem Luz, data de 2004.

Numa entrevista a João Tordo, realizada recentemente no programa "Última Edição" da Antena2, este jovem escritor despertou a minha atenção. Contribuiu para isso o conjunto de referências literárias por ele citadas: Edgar Allan Poe, Jorge Luís Borges, Kafka, Melville e... Paul Auster!
Ora, perante um novo escritor português que se revela admirador de Paul Auster (assim como de todos os outros referidos) e que escreve inspirado pelo estilo e pelo universo austeriano (um novo adjectivo que convém aprofundar), estando esta faceta aliada a uma formação em Filosofia... eu não poderia deixar passar esta leitura em branco. E tornou-se um prazer, mais do que a obrigação de "estar a par de...". Porque João Tordo escreve muito bem.

A sua inspiração literária é clara e imediatamente dada a conhecer pela epígrafe deste "Hotel Memória" :

"Afinal, a memória não é um acto de vontade. É uma coisa que acontece à revelia de nós próprios." (Paul Auster)

Interessante... Como muitas das frases de Paul Auster. E uma ideia a desenvolver pelo escritor, ao longo do "Hotel Memória".
A história é bem construída, consegue manter o suspense até ao fim e desenrola-se com uma cadência narrativa segura, raras vezes marcada por passagens menos conseguidas. Alguma previsibilidade, num ou noutro momento. No geral, interessante a valer, conseguindo surpreender. E muito!

Ao longo da minha leitura, não pude deixar de estar atenta a comparações com Paul Auster, em busca de similaridades. Elas estão lá. Mas o autor foi totalmente honesto quanto a isso. De facto, há vários elementos que evocam a primeira história da "Trilogia de Nova Iorque" de Paul Auster, A Cidade de Vidro, sendo, no"Hotel Memória", intencionalmente recuperados. O mesmo poderá dizer-se em relação às duas outras histórias da "Trilogia", Fantasmas e O Quarto Fechado. Mas estas nítidas alusões ao universo de Paul Auster fazem, para mim, todo o sentido. Apenas porque assinalam alguns dos aspectos mais interessantes da escrita deste mestre da literatura. Refiro-me, por exemplo, à procura de uma identidade por parte dos personagens, identidade essa que, por vezes, só pode encontrar-se através de uma qualquer busca empreendida ao estilo detectivesco. Esta busca, criada artificiosamente mas plenamente simbólica, na minha interpretação, de uma busca do sentido da existência, procurado de forma recorrente pelos personagens. Mas existem outros temas que poderiam ser assinalados, a propósito deste paralelismo. É o caso da situação-limite do esquecimento de si que culmina num torpor de vagabundagem. Em Auster e neste "Hotel Memória". Esta queda vertiginosa que procura escapar às memórias, em confronto com a inevitabilidade das mesmas. Os temas não ficam por aqui e seriam, certamente, interessantes tópicos para discussão num Clube de Leitura...

De acrescentar que João Tordo não fica atrás de Auster na construção da narrativa. O escritor domina com segurança o desenrolar de uma trama muito bem arquitectada e que nos leva a virar as páginas sem darmos conta. E isto passa-se até ao fim, literalmente. Tal como Auster, recorre à técnica "histórias dentro da história". O que é do meu particular agrado.
Mas não só de Paul Auster, João Tordo se reclama. São muitos os ecos de Edgar Allan Poe neste romance, por exemplo. Numa fuga clara a atmosferas realistas, o escritor consegue com eficácia recriar ambientes carregados de tensão, onde a comunicação hipotética entre dois mundos distintos, estranhamente, acontece.

No entanto, foi com o maior interesse que procurei, igualmente, descobrir a voz própria do autor João Tordo. Se fosse apenas um Paul Auster de Portugal, já teria tremendo valor e interesse, para mim. Mas acontece que este escritor é mais do que isso. Escreve bem e tem um cunho pessoal a desenvolver. Algo que certamente virá a provar no futuro... E ao qual estarei atenta.
Desde já, incluo João Tordo na minha futura lista de leituras. Procurarei ler o seu primeiro romance que me escapou. É sempre revigorante descobrir que há novos caminhos a percorrer nas letras portuguesas, pela mão de novos talentos. Como é o caso deste.



A história
: «Em Nova Iorque, um estudante apaixona-se por uma rapariga enigmática com quem vive uma intensa relação. Mas a morte desta, inesperada e violenta, enche o protagonista de culpa e remorso, lançando-o numa espiral descendente até o transformar num vagabundo, sem dinheiro e sem posses.
Prisioneiro do Memory Hotel, um pardieiro na Baixa de Manhattan que parece destinado a albergar criaturas perdidas como ele próprio, é contratado por Samuel, um milionário excêntrico, para procurar um fadista português emigrado para os Estados Unidos quarenta anos antes.»
(Assim se lê o resumo da história na contracapa do livro)
(Editora: Quidnovi Literatura Portuguesa)

Excertos: " A verdade era que, se eu tinha opiniões, elas já não importavam. Decidira que o meu destino era sobreviver a todo o custo, e essa decisão retirara-me o poder de escolher, de intervir, de moldar a minha vida segundo as minhas crenças. A cada dia que passava, enfiado no meu pequeno buraco dentro da cozinha, sentia que o meu espírito se ia esvaziando das coisas essenciais que o formavam, se ia desnudando de tudo aquilo que tinha aprendido, de todas as certezas que havia formado sobre o mundo. Já não dependia do álcool, mas não tomara essa decisão; simplesmente acontecera, ao sujeitar-me ao esforço diário de oito horas debaixo do calor infernal de uma cozinha, na posição mais baixa da hierarquia. Quando chegava ao final de um turno, o meu corpo era borracha queimada, pronto a moldar-se a qualquer superfície e ali ficar, entregue a um cansaço tão grande que nenhum lugar, propósito ou pessoa me poderia fazer querer mover. E, em última análise, era isso que eu queria da vida depois da morte de Kim: não a viver, não estar em lado nenhum, não desejar nada."
(...)
"É aqui que tem início a parte mais obscura desta história, aquela sobre a qual mais dúvidas se levantam no meu espírito. É também aqui que começo uma segunda existência, depois de cair e me levantar, tentando fazer sentido de uma vida que, em breve, deixaria de possuir os contornos ilusórios da realidade. Mas isso aconteceu depois, algum tempo depois, quando deixei de saber distinguir os homens das sombras - quando tudo se transformou numa névoa, numa ilusão de passado, e cheguei a concluir, com a acutilância de um detective, que nunca poderemos saber o que se passou num tempo anterior a nós; nem, muitas vezes, saber a verdade das coisas que acontecem diante dos nossos olhos."
João Tordo, in "Hotel Memória"

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Inutilidades


O instante é fugaz, o minuto é fugaz, a hora é fugaz. As coisas, não sabemos o que são nem porque se vão, se gastam. E nós? Dias para trás. A vida é fugaz. E nós?
Ali, ao balcão da pastelaria, inspirando o aroma do café, olhando os outros no seu constante ir e vir, ela repensou e mastigou de novo, pela milionésima vez, o perpétuo movimento. As mãos daquele homem de gabardina sebenta contavam toda uma vida para trás. Os olhos da rapariga bonita que comia uma torrada diziam que a vida é para a frente. Assim seria?
A rua libertava o seu apelo de corrida. A favor do tempo. Hoje é-se chuva, amanhã sol. Hoje é-se tudo, amanhã nada. Não há estado estacionário que resista a esta força motriz, vinda não se sabe de onde. "De Anima", talvez?
O café estava ali, à sua frente, mas agora, já não. Incorporado em si, iniciava agora uma nova existência, convertido no seu estômago numa nova essência. A perpétua transformação... de tudo.
Desejou ter a recapitulação total da sua existência anterior guardada em folhas de papel, unidas por um cordel que as impedisse de se soltarem, espalharem e perderem. Ou arquivadas num moderno ciberficheiro que pudesse abrir e consultar, em qualquer lugar, a qualquer hora. Reter. Reviver. Contrariar a seta do tempo.
Reparou nos carros que circulavam vertiginosamente à sua frente, por trás dos vidros frios da pastelaria, fugindo de modo irreversível ao seu olhar. Era algo chocante rever-se no absurdo dos seus pensamentos, na inutilidade dos seus desejos. Porque também a dominava o desejo de quietude, logo deixado para trás ao olhar o tempo marcado nos relógios e a premência de ir ao encontro de qualquer coisa a realizar. Porquê o vago mas intenso desejo de quietude? Porquê esta necessidade de parar um pouco e perder-se em divagações inúteis? Se nada pára. Se nada pretende parar. Nem nada pretendemos verdadeiramente que pare. Parar é morrer, dizem... Mas ela sabia que o seu desejo de quietude não era um qualquer obscuro desejo de morte. Contudo, algo a dilacerava interiormente face ao ritmo vertiginoso de tudo o que acontecia. Talvez gostasse muito simplesmente de um abrandamento de ritmo... Mas não, era mais do que isso. Era a sensação de perda irreversível. Sim, agora conseguia nomear com rigor o que sentia. Perda. Perda de cada segundo que foi e já não era. E que não voltaria a ser. A velocidade aumentava essa sensação e convertia-a em sentimento de impotência.
Pagou a despesa, o café, o queque, a água. Já estava fisicamente parada há demasiado tempo. Algo vital, lá de dentro de si, reclamava movimento. Com pena, olhou para trás, olhou-se no momento imediatamente passado, reviu-se encostada ao balcão, inutilmente pensativa. Conseguiu reter por segundos essa imagem, esse instante. Logo depois, tudo se esfumou. O ar frio da rua deu-lhe ânimo para continuar. No passo inexorável do futuro. A realizar...
Olhou para o relógio e considerou que estava com pressa.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Fernando Pessoa


"O homem não difere do animal senão em saber que o não é. É a primeira luz, que não é mais que treva visível. É o começo, porque ver a treva é ter a luz dela. É o fim, porque o saber, pela vista, que se nasceu cego. Assim, o animal se torna homem pela ignorância que nele nasce."
Fernando Pessoa, A hora do diabo




(Imagem: serigrafia de Luis Badosa)

terça-feira, 22 de maio de 2007

Pequeno Apontamento Musical



(Vídeo do Youtube: cena do filme "Tous les matins du monde" - Improvisation sur les Folies)

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Júlio Verne


Às vezes, sabe bem recordar aqueles que no passado fizeram da nossa juventude um tempo onde tudo parecia ser possível!
Umas horas de viagem "mais-além", numa evasão que pode ser tão boa como uma viagem real, agarrada a um livro de Júlio Verne, ou mesmo de um filme sobre uma das suas histórias extraordinárias... bom, parece-me uma perspectiva atraente. Com a qual acordei hoje. E que não sei se terei oportunidade de realizar integralmente... Não sendo hoje, será amanhã. Apetece-me reler. E rever. Subitamente, fez-me falta esta forma de imaginar coisas fantásticas, ao estilo "verneano".
Por isso, aqui fica uma pequena mas sincera homenagem a mais um autor da minha predilecção! Um escritor inesquecível.


"-Ah, meu Deus! - exclamou Nell - , como eu gostaria de ser arrebatada no meio daquele silencioso turbilhão! E que pontos cintilantes são aqueles que brilham no espaço onde não há nuvens?
-São as estrelas de que te falei, Nell. São as infinidades de sóis que representam outros tantos centros de mundos, talvez iguais ao nosso!
As constelações desenhavam-se agora nitidamente sobre o azul-escuro do céu, que o vento ia pouco a pouco purificando.
Nell fitava embevecida esses milhares de estrelas brilhantes que resplendiam por todo o firmamento.
-Mas - observou Nell - se tudo aquilo são diferentes sóis, como se compreende que os meus olhos possam impunemente suportar-lhes o brilho?
-É porque todos esses sóis - respondeu Jaime Starr - gravitam a uma enorme distância. O mais próximo desse número infinito de astros, cujos raios chegam até nós, é a estrela Vega, da constelação Lira, que tu vês quase chegada ao zénite, e que ainda assim dista da Terra cinquenta mil milhares de milhões de léguas. O seu brilho não pode portanto fazer-te impressão à vista. Mas já não acontece o mesmo com o Sol, pois, apesar de estar apenas a trinta e oito milhões de léguas, o seu foco luminoso é tão ardente que ninguém pode fitá-lo."
in Júlio Verne, As Índias Negras

" As margens do Orange continuavam apresentando o mesmo aspecto encantador. Seguiam-se umas às outras florestas de variadas espécies, animadas por inúmeras famílias de aves. Grupavam-se aquém e além árvores da família das protáceas, principalmente as wagen-boom, de madeira vermelha e ondeada, cujas folhas azuis-escuras e grandes flores de um amarelo-claro produziam singular efeito; apareciam também as zwartebast de casca preta, as karrees de folhagem escura e persistente. Umas vezes os bosques prolongavam-se muitas milhas para longe das margens do rio, sempre sombreadas pelos chorões. Outras vezes apareciam de repente grandes clareiras. Eram planícies cobertas de colocíntidas e cortadas por moitas de açucar, compostas de protáceas melíferas, donde se levantavam milhares daquelas aves de canto harmonioso, que os colonos do Cabo denominam suikervogels."
in Júlio Verne, Aventuras de Três Russos e Três Ingleses

Imagens de Júlio Verne: recolhidas aqui
... também aqui
... e ainda aqui: um blog dedicado a Jules Verne e a visitar pelos interessados.

domingo, 20 de maio de 2007

Hoje h(à) Noite










(Youtube-Sade: "Nothing Can Come Between Us")
(Imagens: aqui )

sábado, 19 de maio de 2007

Variações à volta de uma música



A tua voz diz-me que há um caminho para o paraíso. Usando uma escada-invocação.

Peguei na esplêndida ideia e ergui a escada. Gerei uma espécie de invocação. Do amor, da vida, da alegria. Tentei subi-la imperturbável e projectada na fantasia. Estendendo a mão ao paraíso. Com esse toque especial da imaginação, o paraíso inventou-se hora a hora, diante de mim: nenhum lugar espiritual, nenhum lugar material. Um lugar outro como não existia até então. Com uma entrada guardada por um dragão.

E a escada tão frágil, tão desejada, uma escada desenhada e recortada em papelão. Levantada ali por um ladrão. Levantada por mim. Encostada a nada. E que não leva a nada. A não ser ao paraíso. E que não leva a nada. A não ser ao que é preciso para viver quando não se sabe existir sem um pouco de paraíso.

Claro que é possível subir a escada da tua magnífica ideia. Eu subi-a. Claro que me estatelei no chão. Difícil a duradoura suspensão numa escada de papelão. A suportar o meu peso sujeito à gravidade aqui na terra. A lei da gravidade aplica-se em todos os sentidos, físico...e até espiritual. Há sempre alguma coisa que nos obriga a olhar cá para baixo.

Vislumbrei o paraíso e quando estendi a mão para abrir a porta e entrar, toquei nele. Toquei nessa quase-irreal atmosfera. Senti o seu calor flamejante, a sua humidade algo etérea, a sua invocação tão intensa, a sua imperiosa revolução... Até que a escada caiu.

Uma escada precisa sempre de equilíbrio. Muito mais se é de papelão. E não havia ninguém cá em baixo que ajudasse a segurar a escada. Só lá em cima, o dragão. Na sua imponência mitológica, guardando as portas do paraíso. Permitindo apenas um acesso intermitente, entre uma labareda de fogo e outra, ao abrir a boca.

Agora tenho os pés no chão. Pode ser que leve a mais que a nada... Mas eu só conheço, tal como tu, esse caminho do paraíso!

(imagem: Laura Anderson Barbata, Consuelo)