segunda-feira, 30 de abril de 2007

Da música e Rostropovich


Soube pelos blogs Bandida e Caderno de Campo que morreu Mstislav Rostropovich. Alguém que lutou pela liberdade e dedicou a sua vida à música. Alguém para lembrar...


Rostropovich e a música despertam um maravilhoso sentimento: o da admiração! Este desaparecimento só não empobrece a música porque muito nos fica para apreciar e homenagear.
A música é a vida humana na sua expressão mais "colada" às origens e nela é possível descobrir formas de compreensão do incompreensível. O que é vital desdobra-se pela música até chegar a nós, dando-nos finalmente voz, sonho e fantasia. E a coragem do humano, demasiado humano...que em cada momento musical se revela na sua magnífica humanidade.

(imagem no topo do post: Rostropovich por Salvador Dalí)


Cello Sonata No.5 (Part 3), Beethoven



Rostropovich (violoncelo) e Richter (piano)

sábado, 28 de abril de 2007

Poesia


Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
-não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles

(imagem: Primavera Mágica, Michael Parkes)

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Thinking blogger



Obrigada, Alice! Obrigada, Arion! Obrigada, S.!


Eis-me com a responsabilidade de nomear 5 blogs que me fazem pensar!

1. Depois de ponderar alguns dias
2. Depois de informação acerca desta iniciativa meme
3. Depois de ter concluído que muitos me fazem pensar, mas não posso nomear todos
4. Depois de ter a certeza que estes 5 blogs me fazem pensar
5. Depois de atender ao facto desta decisão ser acerca de blogs que conheço
6. Depois de querer nomear os 3 blogs que me nomearam
7. Decidi no sentido de alargar a corrente...

Eis o resultado da minha decisão:

Sem-se-ver

Detesto Sopa

Branco.Azul

Caderno de Campo

Lauro António Apresenta


Os meus parabéns a todos os que nomeio pelo seu bom "trabalho"!
O meu obrigada por me fazerem pensar!
Agradeço também a todos os blogs com os quais contacto, a enriquecedora partilha de ideias, materiais, perspectivas, humor e simpatia!

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Filosofemos...

É com agrado que assinalo o regresso ao jornal Público das crónicas de Eduardo Prado Coelho. Numa das suas mais recentes, para a qual me alertaram (o que muito agradeço), refere-se a uma temática acerca da qual tenho o maior interesse: o lugar da Filosofia neste nosso presente e no futuro, quer próximo, quer longínquo. Desde já, agradeço também estas oportunas e importantes palavras de E.Prado Coelho, em nome desta área do saber à qual dedico grande parte da minha vida.
Aqui fica, portanto, a sua referida crónica, para registo de mais uma voz que se manifesta em relação ao valor de uma disciplina fundamental para o desenvolvimento de um pensamento crítico e reflexivo, necessário e cada vez mais urgente em qualquer sociedade dita civilizada.
Destaco a ideia de "uma visão do mundo" que a Filosofia pode ajudar a criar. Como pode alguém ocupar um lugar no (seu) mundo, sem se apropriar de uma visão minimamente estruturada, e por outro lado, compreensiva, desse mesmo mundo? Além da crónica, aqui fica também a questão.

"Para onde vai a Filosofia"

24.04.2007, Eduardo Prado Coelho

«Devo dizer que se trata de uma situação francamente inquietante: parece que, por critérios que têm a ver com a ideia de que o país precisa de se desenvolver, a Filosofia tende a desaparecer dos currículos das universidades. Logo a Filosofia, essa disciplina que deveria surgir como a rainha das disciplinas, aquela que as deveria de certo modo organizar, estabelecendo os nexos, as transversalidades, as forças ocultas, os veios essenciais. Poderemos chegar a esta situação algo absurda ou caricatural de vermos alguém chegar a uma universidade e lhe virem dizer que, se quiser saber algo de Filosofia, deverá arranjar um professor particular, ou então procurar uma universidade privada, dessas cujo estatuto é por vezes nebuloso, e procuram encontrar motivos para atrair alunos. É verdade que, na tradição portuguesa, a Filosofia tem um estatuto pouco reconhecível.
Somos mais gente de História, para quem o acto de pensar não tem um estatuto respeitável. Mas, de qualquer modo, a gente reconhece a importância do pensamento. Querem um exemplo algo trivial? Veja-se, no programa Um Contra Todos, o caso desse excelente apresentador que é José Carlos Malato. Ele fez Filosofia, e isso reconhece-se logo no modo de abordar os problemas e na forma como se aproxima dos candidatos. É uma visão de conjunto, capaz de integrar a extraordinária variedade das questões e até a fragilidade ou a força de alguns candidatos.
O que se passa neste momento, e que tem suscitado as reacções indignadas daqueles que se interessam por estas coisas, com reuniões, debates, intervenções públicas, mesas-redondas, é que o Ministério da Educação parece considerar que a Filosofia não deve ter lugar no ensino, pela simples razão de que não tem alunos suficientes. Sejamos objectivos: pelas razões já apontadas, é claro que não tem. Talvez seja frequentada por meia dúzia de pessoas no máximo do seu auge. Mas a verdade é que é preciso distinguir duas coisas: ou encaramos os problemas segundo uma perspectiva meramente economicista (o que, infelizmente, acontece com demasiada frequência no âmbito do Partido Socialista), ou então tem de se ter em conta a própria lógica do sistema universitário, onde é difícil imaginar a ausência da Filosofia. Donde, o que se está a verificar é francamente perturbante. Para onde estamos a ir? Para que tipo de sociedade nos encaminhamos? Tenho grandes dúvidas em relação a todo este processo. Basta de querermos ser apenas eficazes, temos de perceber que as coisas têm a sua especificidade e não vale a pena estar a escamoteá-lo.
Uma escola não pode ser apenas uma máquina produtiva, tem de estar ligada a uma visão do mundo, e, se essa visão do mundo é de esquerda, tem de assumir aquilo que essa esquerda tem como tradição. A ideia de que a Filosofia tem um papel fundamental não é recente, vem muito de trás, provavelmente do romantismo alemão e de alguns nomes essenciais como Schlegel ou Hölderlin. É verdade que, na sua essência, o problema da Filosofia não tem orientação ideológica particular. É uma realidade que se impõe aos olhos de todos e que deveria ser considerada por todos.»
in jornal Público de 24.04.07
(imagem: fotografia de Pedro Noel da Luz)



quarta-feira, 25 de abril de 2007

José Carlos Ary dos Santos


Soneto presente

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim

a terra de onde venho é onde moro

o lugar de que sou é estar aqui.


Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.

Ary dos Santos

(imagem: Sunlight Collage, John Charbonneau)

terça-feira, 24 de abril de 2007

Porque me apetece...


Fui à minha pequena biblioteca e encontrei um oportuno texto que me apetece recordar:

Quero saber pensar

Imagine que um dia alguém se aproximava de si na rua e em vez de lhe perguntar polidamente as horas, ou onde é que ficava a rua tal, lhe perguntava, com a maior naturalidade:
- Importa-se de me dizer se sabe pensar?

Imagine, com a maior realidade que puder, que essa pessoa lhe pedia que a ajudasse a pensar, exactamente com a mesma naturalidade com que lhe pediria lume ou troco de vinte escudos.

Imagine que lhe faziam essa pergunta assim, na rua, ou em qualquer outra circunstância, e tente avaliar pela sua surpresa ao recebê-la e pela resposta que eventualmente lhe daria, o que é que pensa a respeito da necessidade de saber pensar; se alguma vez teve dúvidas sobre se sabe ou não pensar, ou quantas vezes, e exactamente de que maneira, é que o problema se lhe pôs.(...)

Poucas pessoas terão alguma vez na vida perdido um minuto do seu sono a pôr, ou a tentar resolver, explicitamente, essa questão. Mas todas as pessoas perderam - e perdem continuamente - muito mais do que um minuto, uma hora ou uma noite inteira do seu sono, por não saberem pensar - por não quererem saber pensar.

Quero filhos, quero vodka, quero um ideal; quero uma casa no campo, quero um guru, quero um bife de lombo, quero a eternidade, quero um perfume francês - mas nunca ouvi da boca de ninguém isto:

QUERO SABER PENSAR

Sousa Monteiro, Tire a Mãe da Boca

E este texto apetece-me porque ando um bocado preocupada, acho que não ando a pensar bem e gostava de pensar melhor... ou pior, não sei... mas acho que uma auto-análise faz sempre bem... e deu-me para isto...

Nota: a referência aos "vinte escudos" está, obviamente, desactualizada, mas o resto do texto acho que continua a ser mesmo vanguarda...

Felizmente que há gente "séria", como o autor deste texto, que nos faz pensar e querer saber pensar...
E todos os dias são dias do livro para mim. Divinos livros que tanto me fazem pensar e... que estranho!, tanto me fazem descansar... companheiros insubstituíveis da nossa "Terrena Comédia".

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Dia do Livro



Ou Isto ou Aquilo


Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
Quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e não guardo o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Cecília Meireles

(Imagem: Liliana Gelman, The Library)