segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Continua em...

O Música do Acaso tem um ano de existência. Esta experiência, da qual resultaram outros espaços a ela ligados, continua, após actualizações de várias ordens e respectivas reformulações, num novo endereço.

Agradeço a todos os que por aqui passaram, ao longo deste ano, a atenção dispensada.



quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Pessimismo reformado


Ainda a propósito da minha mais recente leitura (os contos de Dino Buzzati), deixou em mim profunda impressão o último destes textos que li, intitulado "O Sótão".
Nesta história singela, um homem vê-se confrontado com uma simbólica tentação que o leva à destruição, nomeadamente, ao fracasso enquanto artista pela realização medíocre da sua obra. A tentação que o atormenta e que, na verdade, poderia ser qualquer uma, desde que ligada ao prazer mais intenso e desregrado, reveste aqui a forma de uma pilha de maçãs, as quais, surgindo estranhamente numa arrecadação semi-abandonada, possuem cores e sabores (sabores, em especial) capazes de conduzir um homem à loucura, ao abandono de si e de toda a actividade produtiva. Parecem igualmente ter o efeito de o levar a optar por uma espécie de pacto com o diabo, em detrimento da escolha do bem identificado com o carácter sagrado da dignidade humana. A sua luta revela-se, logo à partida, algo artificial, uma vez que precisa de se comprometer com Deus, sob o jugo do medo que o domina, para conseguir realizar algo digno de nota para a sua vida e para si mesmo enquanto ser humano. Evidentemente, a história traz-nos toda uma série de ecos relacionados com o episódio bíblico do Jardim do Éden e respectivo "fruto proibido". Como se a "maçã de Adão e Eva" continuasse a atormentar-nos...

É realmente algo prodigioso, do ponto de vista literário, conseguir condensar tantas e tão complexas questões acerca da natureza humana, através de imagens aparentemente tão simples e mediante um simbolismo tão encantador quanto mais nos parece radicalmente ingénuo.
No entanto, este conto a que aludo é de um tremendo pessimismo, tão negro e assustador como a mais terrível história de violência assassina. Neste caso, a violência exerce-se a partir do sujeito para consigo mesmo, como se todo ele se desdobrasse, revelando nas suas profundezas um monstro humano, o qual tem como alvo desse intenso poder destrutivo, a sua própria pessoa. Malévolo perturbador na essência. Fatal na existência.

Por outro lado, esta história de um homem completamente dividido no universo das contradições revela uma intensa vivência religiosa. Com todas as "cargas" que essa dimensão de sentimento religioso acarreta, entre elas, a soberana culpa. Neste caso, fundamentada, talvez...
Problemático, profundo, encantador e filosófico-existencial, é este o universo de mais um grande escritor que ficará na lista dos meus admiráveis.

Mas a questão deste pessimismo que parece comum a tantos grandes pensadores, escritores e intelectuais, artistas ou boémios experimentadores da vida, visão de tantos e tantos que parecem convergir quanto às suas conclusões acerca do mundo e dos seres humanos... A questão é que todos, no seu conjunto, parecem formar uma impressionante amálgama de visões pessimistas da existência, sem hipótese de ser ignorada.

É sempre uma alternativa a escolher, a de permanecer no mundo com a postura própria de um Candide de Voltaire, acreditando que está tudo bem, pois este é o melhor dos mundos possíveis. Mas parece difícil não querer saber mais sobre o mundo, ainda que à custa da descoberta de não ser este o melhor de todos os possíveis. A agravar essa desilusão pode juntar-se o problema de não se saber indicar que outro mundo (em concreto) seria uma possibilidade e, de facto, melhor.


E a pergunta que se impõe é: onde estão as reais visões optimistas ou, no mínimo, progressistas do mundo e dos seres humanos? Onde reconhecer um pendor optimista e de confiança no futuro, onde os projectos se formem com a vontade de que aconteçam, mas sem que nos pareçam tão utópicos ao ponto de constituirem meras quimeras, ou fantasias ingénuas sem possibilidade de se realizarem? É ainda possível ser-se optimista, mesmo sabendo que a matéria-prima do humano tem um lado tão obscuro quanto um outro que pode ser brilhante?

Compreendo o pessimismo e eu mesma também o vivo. Reconheço-lhe fundamentos. Mas suponho, com esperança, a existência de outras perspectivas. É que sem esse desafio no horizonte, a vida parece constituir um pântano que faz desaparecer ideias e com elas todo o futuro possível...
Evidentemente, há muitas espécies de pessimismo e são muito diversos os contextos onde ele se pode fazer sentir. No entanto, antes de qualquer especificidade, ele parece constituir um modo de existir que lenta e gradualmente impregna as nossas redes neuronais. Depois... reflecte-se no domínio mais propício num dado momento. E a outra pergunta é: o mundo e a humanidade são entidades essencialmente negativas, ou o nosso esquema mental dominante tem poder para os tornar tal e qual assim? Se tem, também pode criar o inverso e trazê-lo efectivamente à existência.

Aqui fica uma posição que me pareceu interessante, manifestada por alguém de quem vale a pena saber mais... Jacques Attali! Sobretudo porque é uma visão optimista!

"(... a dualidade da história: ao mesmo tempo sentido e movimento, imobilidade e repetitividade. No fundo, a única coisa imóvel na história é o modo como as formas, naturais e sociais, nascem e desaparecem. Aquilo a que chamamos habitualmente a crise é, pois, o estado permanente de toda a realidade: uma forma é sempre uma tensão para um ideal, em realização ou em destruição; e a "não crise" é um momento extraordinariamente fugaz, uma utopia volátil entre dois períodos de crise, de reescritura do texto da história do mundo."

"A história é antes do mais a procura insaciável da liberdade contra a barbárie. Utiliza sempre a desordem, o mal, como sinal anunciador da urgência da ultrapassagem de si. Ainda aí, como em todas as coisas, o mal pode ser fonte de bem."

Jacques Attali in Entrevistas de Guitta Pessis-Pasternak (jornalista de ciência)

domingo, 20 de janeiro de 2008

Dino Buzzati

Este é um autor cuja leitura não pode deixar de ser absolutamente recomendável. Li recentemente dele uma colectânea de contos publicada pela Cavalo de Ferro que se apresenta com o título "Pânico no Scala". De facto, este é o primeiro conto magnífico de todos os que no livro se oferecem a ler. A minha preferência vai, no entanto, para muitos dos outros.


Dino Buzzati (1906-1972)

"O Deserto dos Tártaros"
é o romance considerado a sua obra-prima, do qual vi há alguns anos a adaptação ao cinema de Valerio Zurlini. Desde logo, fiquei fascinada com o ambiente recriado, uma atmosfera de imobilidade onde a acção decorre quase só pelo poder mental de projectar os acontecimentos desejados e ambicionados. Essa mesma temática está igualmente presente em muitos dos seus contos, a avaliar por estes que li. Ou seja, Buzzati descreve o ser humano como aquele cuja energia criadora pode ser devastadora. Com a capacidade única de introduzir na realidade dimensões fantásticas e surreais, as quais conduzem a sua existência, na maior parte das vezes, a um irredutível absurdo. Pode não acontecer quase nada efectiva e realmente, mas a partir da intervenção criadora do humano, acontecem inumeráveis coisas... outras... É essa também a ideia, em grande parte, de "Pânico no Scala".



Dino Buzzati foi um grande escritor (de referir também a sua actividade como jornalista e o seu trabalho na pintura) mas, acima de tudo, foi um brilhante ser humano. Deixou-nos textos indiscutivelmente especiais e inesquecíveis. Escritos, em grande medida, com a elegância e o rigor formal de um classicista. Por outro lado, o conteúdo é fantástico e maravilhoso, excedendo todos os limites da forma na sua transbordante riqueza imaginativa, a par de uma profunda vertente existencial. Com a maior simplicidade narrativa, conduz-nos à reflexão pelos temas mais banais e, simultaneamente, mais radicais. É assim que nos transporta à matéria inexplicável de que se faz o humano.

Fica-nos o seu precioso e imperdível registo literário, o de uma dimensão da arte capaz de transfigurar a realidade até ao melhor e mais alto nível.

Uma pequena amostra:



"(...) Maio ia já bem adiantado, é verdade, altura em que a temporada do Scala, no entender dos mais intransigentes, começa a declinar, ocasião em que é de boa norma oferecer ao público, composto em grande parte por turistas, espectáculos de êxito seguro que não são duma exigência excessiva, escolhidos no repertório clássico mais tradicional; (...).

Mas naquela noite havia espectáculo de gala. (...) Eram nove menos dez, o teatro já estava cheio. Cottes olhou à volta, extasiado como um rapazinho. Por mais que os anos passassem, a primeira sensação, sempre que entrava naquela sala, mantinha-se pura e viva, como perante os grandes espectáculos da natureza. Muitos outros, com os quais trocava fugazes sinais de saudação, sentiam o mesmo, sabia-o. Disso mesmo nascia uma espécie de fraternidade, uma espécie de inócua maçonaria que aos estranhos, devia parecer porventura um pouco ridícula. (...)"
Dino Buzzati in "Pânico no Scala"



Pintura de C.D. Friedrich
"Giuseppe Gaspari, comerciante de cereais, de quarenta e quatro anos, chegou num dia de Verão à aldeia de montanha onde a mulher e os filhos passavam férias. Mal chegou, a seguir ao almoço, quase todos os outros tendo ido dormir, saiu sozinho para dar um passeio. Enveredando por um caminho íngreme que subia para a montanha, olhava à sua volta para observar a paisagem. Mas, apesar do sol, a sensação que tinha era de desilusão. Esperara que o lugar fosse um vale romântico com bosques de pinheiros e larícios, fechado por grandes falésias. Em vez disso, era um vale de contraforte alpino, fechado por cumes atarracados, como panettone, de aspecto desolado e baço. Um poiso de caçadores, pensou Gaspari, lamentando já não poder viver, nem que fosse por alguns dias, num daqueles vales, imagem de felicidade humana, dominados por penhascos fantásticos, onde inocentes hotéis em forma de castelo se erguem no limiar de florestas antigas, carregadas de lendas. E com amargura considerava que toda a sua vida fora assim: nada, no fundo, lhe faltara, mas cada coisa fora sempre inferior ao desejo de uma vida mediana que extinguia a necessidade, mas que nunca lhe dera uma alegria plena. (...)

Sim, ele, quarentão, tinha ido brincar com crianças, julgando-se criança, só que nas crianças reside uma espécie de angélica leveza, enquanto ele acreditara que era tudo a sério, com uma fé pesada e furiosa, incubada, quem sabe, por tantos anos sem dela ter consciência. Uma fé tão forte que tudo se tornara verdade - a ravina, os selvagens, o sangue. Entrara num mundo que já não era o seu, o das fábulas, passara os confins que não se podem impunemente tentar numa certa estação da vida. Dissera a uma porta secreta abre-te, julgando quase brincar, mas a porta abrira-se verdadeiramente. Dissera selvagens e assim acontecera. Seta, por brincadeira, e verdadeira seta o matava. (...)"
Dino Buzzati in "O Burguês Enfeitiçado"


Mais informação sobre o autor e a sua obra aqui e aqui

(As imagens foram obtidas em pesquisa do Google)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Trópico de Capricórnio

Para ler hoje:

"Não digo que Deus é uma grande barrigada de riso; digo que temos de rir com mais força, se nos queremos aproximar, que seja, de Deus. O meu único objectivo na vida é chegar perto de Deus - isto é, chegar mais perto de mim próprio. É por isso que não me importa a estrada por que enverede. Mas a música é muito importante. A música é um tónico para a glândula pineal. A música não é Bach ou Beethoven; a música é o abre-latas da alma. Torna-nos terrivelmente calmos por dentro, dá-nos a consciência de que o nosso ser tem um telhado."
Henry Miller in Trópico de Capricórnio





domingo, 6 de janeiro de 2008

Alguém contou...

Foi há anos atrás num fim de tarde. Estava frio e nas ruas a atmosfera era de tristonho bulício cortada pelo calor húmido e cinzento que pairava nos cafés. Ele entrou exactamente naquele com ar de quem quer vencer todas as situações. Olhou vagamente em redor e atirou um olhar directo para o balcão. Sabia quem procurava. E ali estava ela receosa. Face a um conhecido desconhecido. Tal como tudo é sempre, mesmo que julguemos que não. Encarou-o ainda ao longe, antes de se cumprimentarem. Depois, foram falando. Mas ela tremia com falta de jeito. Ele não. A segurança da situação estava na sua mão. E o prazer de sentir esse comando e direcção era evidente, espelhado no seu rosto imperturbável onde só os olhos brilhavam. Aconteceu assim num dia esperado numa vida inesperada. Tal como tudo acontece ser.



Tomou o café mas soube-lhe mal. Conversar de olhos bem abertos, surpresos, expectantes e incrédulos perante os sentimentos. Só isso importava. O errado e o certo indefiniam-se à frente deles, o resto do mundo estava num eclipse total. Porque a vida tem acontecimentos. Eles têm ecos, são consequências. Sim, acontece as pessoas encontrarem-se. E os encontros das pessoas produzirem efeitos: o efeito neles foi uma longa sucessão de factos. Foi. Das coisas simples, fizeram-se complicadas.

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Tudo se deu naquele dia, naquele encontro. Não sei se o primeiro, segundo ou terceiro. A ordem não importa. O instante sim. No momento etéreo quando o olhar olhou - entendeu - e o outro olhar só viu o que era magia. A vida às vezes faz-se em sintonia. Quando as vozes são da mesma ternura. Basta uma só vez para valer a pena.

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Sairam para a rua onde a noite entrava. Fria, triste e húmida, os olhares brilhavam. Não se sabe como, aproximaram-se. Ela teve que ir mas ele ficou. Até chegar tudo o que veio depois...

(Tenho que recriar o resto da história!)

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Finding Neverland...


Polémicas à parte, pode ser fácil encontrar a melhor forma de começar um Ano Novo. Vale a pena abrir uma porta qualquer... e deixar entrar a Terra Do Nunca...

A música é inesquecível




Feliz 2008!


domingo, 23 de dezembro de 2007


B
OAS FESTAS!


segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Âmago


Cansada da periferia do universo e do mundo. O caminho do lado de fora parece não ter fim, sentido ou direcção... Procura-se o caminho para o centro e não se acha. As vias entrecruzam-se solenemente. Então, uma porta, uma janela entreaberta dá para o âmago. É preciso contorná-lo.
O ar inóspito não convida, mas está lá o cerne de tudo. Procurar... procurar... a vida indomável. Quando desponta por magia. Num vermelho que derrete o gelo.



Ir até um qualquer lugar mítico pode ser impossível. Já não temos tempo para procurar entre florestas tristes os sinais de vida. Lugares longínquos e inacessíveis, são isso agora.
Na impossibilidade da viagem, só me resta inventar a minha própria flor...

E o certo é que a voz da Sade aquece qualquer Inverno! Está-lhe no âmago.
Sim, é verdade, gosto da música. Sobretudo porque está frio. E as flores raro despontam em lugares absolutamente gelados. Muito menos, os frutos.

"Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exactos

Basta para podermos

Achar a vida leve."

Ricardo Reis

domingo, 9 de dezembro de 2007

O mundo...


Às vezes, nada se diz. Nada se mostra. O que se pensa. O que se sente. É quando tudo nasce em silêncio. A palavra sente-se vã. A imagem também. Da sua nulidade colhe-se o seu peso com gravidade.
Às vezes, diz-se. Às vezes, mostra-se. O que se pensa. O que se sente. É quando tudo se faz palavra. Imagem. Som. Tentativa de sentido. A ilusão da revelação tem força. Desta força colhe-se desejo de transformar. Ao dizer, ao mostrar... o que se pensa, o que se sente.

Hoje, eu sinto: mesmo que diga o que penso, o que sinto... O mundo não vai mudar.
Mesmo assim, às vezes, digo. Mostro. Pela atracção do abismo....... que é a palavra pela qual se diz. Pelo instante da imagem... que é a força da síntese com que se mostra. Pelo chamamento da sonoridade... que é a música, pormenor da sensibilidade.
Não creio mudar o mundo.
Creio apenas estar no mundo.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Drama chic



Fui ver este filme sem qualquer referência prévia. Não sabia quase nada sobre ele, a não ser o título português (de que não gosto, acho preferível Crepúsculo em vez de Ao Anoitecer).
Às vezes, acontece ir ao cinema assim. Sem informação antecipada.
Deparei-me com um elenco repleto de nomes sonantes do cinema e com o nome de Michael Cunningham no argumento. Escritor que tenho em grande conta.
Pode ler-se um pouco mais sobre os detalhes do filme e respectiva sinopse aqui
ou aqui
Pelo que pude averiguar, o filme é classificado por muitos com a categoria de "drama chic". Embora me pareça uma designação algo pejorativa, acho que lhe assenta muito bem. É um drama e todo ele chic. Entre outras razões, porque se passa no ambiente da alta sociedade norte-americana, neste caso, de Newport. Por outro lado, ainda antes da referência feita no filme ao "Grande Gatsby" de F.S. Fitzgerald, já o ambiente me tinha recordado um pouco essa atmosfera de decadência e conflitos mal-resolvidos, onde a riqueza, o poder e os excessos são uma constante.
Até aqui, tudo bem. Mas concordo com a designação de drama chic por outros motivos mais fortes, quanto a mim. Embora o drama seja real e se aplique a qualquer um de nós, se o quisermos... As variações podem ser infinitas, o esquema é o da vida humana... perene... Apesar de tudo isso, o certo é que é um drama carregado de beleza "perfeita", de beleza elitista. A crueza da realidade que se enfrenta não condiz com a sufocante perfeição idílica dos cenários.
Drama chic ou não, foi isso que não gostei no filme. O contraste altamente pessimista entre o idílio de um passado romântico de maravilhas dignas de "pacotes de viagens a lugares de sonho" e o terminus da vida, num quarto, numa cama que é conotada com o fim e com uma prisão física, um lugar onde o sol mal chega a entrar... Todo o filme decorre neste alternar de ambientes carregados de mensagens subliminares. Uma visão pessimista que gera um filme pessimista. E melodramático. Induz as lágrimas sentidas, mas conscientes de que houve muito de manipulação nesse efeito secundário. Uma mistura de "Grande Gatsby" e de romance tipo Nicholas Spark ("O Diário da Nossa Paixão", por ex.), se é que é permitido misturar dois produtos de qualidades tão distintas.

No entanto, existem aspectos positivos e para isso talvez contribua o toque Michael Cunningham. Algumas das grandes questões humanas que não podem deixar de tocar mesmo o mais empedernido dos corações. A retrospectiva de uma vida e o peso existencial da mesma... O ciclo de um percurso que se cumpre da juventude até à morte, onde os erros não são erros mas opções com consequências... O desejo de voltar atrás e reviver, refazendo tudo outra vez de outra forma... A sempre complexa relação entre pais e filhos (aqui, entre mãe e filhas)... A tristeza pelo que não se viveu e a paz na aceitação do que se escolheu... Tudo muito denso, profundo, sério, filosófico e bastante doloroso de enfrentar. Muito de acordo com o magnífico estilo de Michael Cunningham que também consegue sempre revelar o conhecimento minucioso das nuances da "alma" feminina.
A minha cena preferida (há muitas boas que podem ser vistas por aqueles que optarem por ver o filme e que foram vistas por aqueles que já o visionaram) é a do fim do filme. Infelizmente, não encontrei a respectiva imagem.
Não pude deixar de pensar numa determinada concepção de alma, algo pessimista (o que vai bem com o clima criado) e que está presente em várias cenas, especialmente na do desfecho. A da alma-sopro. Uma ideia de alma que remonta a Homero e que na última cena perpassa a mensagem final, ao deixar entrar uma brisa forte pelas janelas do quarto, agitando as cortinas brancas, no momento da morte de Ann... Não inovadora, mas bem feita. E sempre uma recriação interessante.
Nesse exacto momento, tornou-se-me presente a passagem do Fédon de Platão, quando Cebes, dirigindo-se a Sócrates, diz:
"(...) quanto, porém, se refere à alma, é objecto de grande incredulidade para os homens, que suspeitam não existir em parte alguma, depois de se separar do corpo, e que, no dia da morte, é destruída e perece com ele. Apenas se separa e sai do corpo, imaginam, esvai-se como hálito ou fumo e, esvaída deste modo, não existe em nenhum lugar."

Um outro aspecto interessante (e forte) do filme é o de possuir muitos actores dignos de nota. Nomes mais do que afirmados. E outros que prometem. Gostei muito da Claire Danes e não pude deixar de encontrar o estilo Paul Newman em Patrick Wilson. Mas é de assinalar a filha de Meryl Streep (a qual ainda não conhecia). As semelhanças são evidentes e quanto ao talento no representar também se fazem notar. Achei-a logo especial, antes de verificar que se tratava da filha de uma das actrizes de cinema que mais admiro. Um clone natural que mostra ter personalidade própria. Mais uma vez, a relação mãe-filha(s) que está sempre subjacente neste filme.

Tal mãe...tal filha... !

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Leonardo


Ultimamente, um certo acaso conduziu-me ao retomar da leitura de um texto lido há uns bons anos atrás. É verdade, há livros que vale a pena reler, sobretudo por serem lidos em épocas diferentes da nossa vida. Acontece sempre o impacto da leitura anterior ser reconvertido noutras formas de impacto. E, sobretudo, são outros os detalhes aos quais se dá toda a atenção. Se, noutros tempos, esta leitura pareceu algo fastidiosa (talvez pelo carácter de imposição de que se revestia); agora, ela surgiu-me como muito mais interessante. E trouxe até mim toda a singela humanidade desse extraordinário e enigmático ser (pintor mas não só...) que foi Leonardo da Vinci.

Sobre a infância de Leonardo, diz-nos Freud:

"Sabemos muito pouco sobre a juventude de Leonardo. Nasceu em 1452 na pequena cidade de Vinci, entre Florença e Empoli; era filho natural, o que naquela época não era socialmente considerado como uma mácula importante; o seu pai era Ser Piero da Vinci, notário e descendente de uma família de agricultores que tomaram o seu apelido da localidade de Vinci; a mãe chamava-se Caterina e era provavelmente camponesa, tendo casado mais tarde com outro habitante de Vinci. Esta mãe não reaparece na vida de Leonardo; apenas o escritor Mereschkowski crê poder reencontrar os seus vestígios. A única informação segura sobre a infância de Leonardo é dada por um documento oficial do ano de 1457, um registo de impostos florentino, no qual está incluído Leonardo, entre os membros da família Vinci, como filho ilegítimo de Ser Piero, com a idade de cinco anos. Do seu casamento com Donna Albiera, Ser Piero não teve filhos e por isso o pequeno Leonardo pôde ser educado na casa paterna. Só a deixaria quando entrou como aprendiz - desconhece-se com que idade - para o atelier de Andrea del Verrocchio. No ano de 1472 o nome de Leonardo encontra-se já na lista dos membros da Compagnia dei Pittori. É tudo."
Sabemos, portanto, pouco.

Os seus contemporâneos teciam-lhe diversas críticas, relativas ao seu trabalho como pintor. Sobre Leonardo, enquanto pintor e homem de ciência, diz-nos também Freud:
"Embora nos tenha legado obras-primas da pintura, enquanto as suas descobertas científicas permaneceram inéditas e inexploradas, nunca nele o investigador deu plena liberdade à carreira do artista; muitas vezes a prejudicou seriamente e talvez tenha acabado por abafá-la.
(...)

Que ocultava, pois, a personalidade de Leonardo à compreensão dos seus contemporâneos? (...) Nos tempos da Renascença era habitual a reunião num só indivíduo de múltiplas capacidades; o próprio Leonardo era, de facto, um dos exemplos mais brilhantes dessa época.
(...)

É bem possível que este retrato de um Leonardo radioso, alegre e apreciador dos prazeres não corresponda senão a um primeiro e mais longo período da vida do mestre. A partir daí, quando a decadência do poderio de Lodovico Moro o obrigou a deixar Milão, a sua esfera de actividade e a sua posição segura, e a levar uma existência agitada e sem brilho até ao seu último asilo em França, o humor de Leonardo pode ter-se tornado mais sombrio e alguns aspectos estranhos do seu carácter terem-se acentuado. A deslocação dos seus interesses, que com os anos se foram paulatinamente transferindo da sua arte para a ciência, também deve ter contribuído para alargar o fosso entre si e os seus contemporâneos."

Esta faceta de múltiplos interesses, por parte de Leonardo da Vinci, é o que me parece inegavelmente interessante e mesmo atraente na sua personalidade. O que não deixou de lhe trazer, certamente, inúmeros inconvenientes. Mas, na verdade, Leonardo foi muito mais do que um pintor, foi um homem muito especial, com uma personalidade enigmática e um génio prodigioso. Talvez perdido entre tantos aspectos que alimentavam intensamente o seu infinito desejo de conhecimento. O que Freud interpreta como resultante de um mecanismo de sublimação. Sublimação ou não, valeu a pena ter existido. Talvez a sublimação, tal como Freud a entendia, seja positiva e, sem dúvida, produtiva.
Esta personalidade fascinante, revelada em todos os seus trabalhos, está muito para além do ícone que funcionou como elemento aglutinador no romance de Dan Brown, "O Código da Vinci".

"Todas as experiências com que, (...), perdia tempo em vez de pintar assiduamente por encomenda e enriquecer como Perugino, seu ex-condiscípulo, pareciam-lhes (aos seus contemporâneos) caprichosas brincadeiras ou tornavam-no mesmo suspeito de se dedicar à «magia negra». (...) Quando dissecava cadáveres de cavalos e de seres humanos, construía máquinas voadoras, estudava a nutrição das plantas e a sua reacção aos venenos, afastava-se bastante dos comentadores de Aristóteles e aproximava-se dos desprezados alquimistas, em cujos laboratórios a investigação experimental tinha pelo menos encontrado um refúgio durante esses tempos adversos.
Para a sua pintura isto teve como consequência que Leonardo perdesse o gosto pelo uso do pincel, pintasse cada vez menos, deixasse muitas obras inacabadas e pouco se interessasse pelo seu destino. Era também isto que os seus contemporâneos lhe criticavam, pois a sua atitude perante a arte continuava a ser para eles um enigma.

Admiradores ulteriores de Leonardo tentaram apagar do seu carácter a mancha da inconstância, alegando que o que se lhe censura é próprio dos grandes artistas. (...) A penosa luta com a obra, a fuga final perante a sua realização e a indiferença pelo seu destino ulterior podem encontrar-se em muitos outros artistas; mas sem dúvida que Leonardo apresentava este comportamento ao mais alto grau."
Excertos de :
"Uma Recordação de Infância de Leonardo da Vinci", S. Freud


A leitura deste texto de Freud é interessante. Muito bem escrito, como foi sempre característico do seu autor, refere vários factos sobre Leonardo, mas perspectivados de um ponto de vista que é tudo menos superficial.
Evidentemente, todo o texto reflecte o esquema da interpretação psicanalítica. Hoje, este esquema pode ser considerado algo limitador, mas continua a ser referência para a criação de novas perspectivas acerca dos labirintos da mente e da vida humanas.
Neste caso, a interpretação profunda do perfil psicológico de alguém como Leonardo da Vinci mostra-nos, antes de mais, a sua humanidade repleta de contradições, de medos, de dúvidas, de inconstâncias e de arrependimentos. Não um ser perfeito, mas um ser com defeitos, fraquezas e recalcamentos. Se sublimou tudo isso, soube fazê-lo com resultados magníficos!
Sinceramente... considerando a nossa época actual... e usando linguagem psicanalítica:
Às vezes, um bocadinho de sublimação não faz mal nenhum. Pelo contrário!



(Imagens: Desenhos de Leonardo da Vinci obtidos em pesquisa do Google)

domingo, 18 de novembro de 2007

Disneylândia de Diane Airbus


Diane Airbus (1923-1971). Esta fotógrafa despertou o meu maior interesse, como já uma vez aqui referi.
A consciencialização que realizei acerca do seu trabalho resultou de ter visto o filme "Fur - An Imaginary Portrait of Diane Airbus" (realizado por Steven Shainberg, EUA, 2006).
O filme é baseado no livro "Diane Airbus: A Biography" (2005) de Patricia Bosworth. O acesso à vida e ao trabalho da fotógrafa foi estritamente controlado pela sua filha Doon, a partir de 1971, data em que a artista se suicidou. Só recentemente, Doon permitiu que fosse trazida a público, quer a vida, quer a obra da mãe. Em relação ao filme, ele motivou alguns protestos por parte da família, na medida em que o terão considerado não respeitador de alguns factos reais e importantes na vida de Diane Airbus.

Como o próprio título do filme indica, trata-se de uma visão imaginada. Por isso, abre apenas uma espécie de "janela imaginária", a partir da qual é possível captar a dimensão única do seu trabalho. O que pode ser muito...
Neste aspecto de possibilitar a abertura a um certo universo particular, o filme pareceu-me inegavelmente bom de tão revelador: o conflito latente de uma mulher, Diane, dividida entre a exigência e o desejo de perfeição, assim como de adequação absoluta aos ideais da sociedade norte-americana daquela época, e a necessidade de realização artística, face à energia criativa que a dominava cada vez mais. Pelo filme, é possível pressentir o conflito que nos vai invadindo de um modo algo silencioso e, por isso mesmo, muito subtil.


Na verdade, não considerei o filme uma obra maior. De assinalar, apesar disso, além do que já referi de positivo, a excelente interpretação de Nicole Kidman (a de Robert Downey Jr. não lhe é inferior) e, por outro lado, a forma como consegue recriar a densidade dramática da personalidade da fotógrafa, assim como a da sua própria vida, mostrando as peculiaridades da sua visão artística. Tem, portanto, o mérito de divulgar alguns aspectos do seu trabalho, ao mesmo tempo que consegue cativar para a originalidade do seu "um outro olhar". Que me pareceu tão intenso quanto inovador. De intervenção e de uma certa "fascinação". Na verdade, não o vou esquecer. Está registado fortemente nos arquivos da minha memória.
Por todos estes motivos, posso afirmar que gostei do filme.

Entre outros aspectos interessantes do trabalho de Diane Airbus, o que mais retenho é essa capacidade de recriação da realidade, introduzindo nela uma atmosfera de "diferença" perante a banalidade do real. Ao mesmo tempo que não deixa de revelar esse mesmo real com grande intensidade e lucidez. Por vezes, a realidade nua e crua mas tornada "especial".
Esta pequena divagação, acerca da minha admiração pelas fotografias desta artista, é uma igualmente pequena homenagem ao seu grande talento e criatividade.
Além da alusão ao filme, aqui fica também a Disneylândia vista com o seu "olhar" e a sua máquina fotográfica. Uma das minhas preferidas, entre as que encontrei...


(Imagens: Disneylândia de Diane Airbus e resultados de pesquisa no Google)

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Literatura


Desde sempre ouvi falar de Norman Mailer, mas foi há uns poucos anos que lhe dei a devida atenção. Resultou de um documentário a que casualmente assisti num canal de televisão. Não me lembro já qual. Mas nunca mais esqueci Norman Mailer e o quanto me impressionou, a partir de então, a sua força humana que fazia adivinhar igual poder literário. Foi assim que decidi ler "Os Nus e os Mortos", de tal forma me interessou confirmar a qualidade da construção literária de um universo feroz e atrozmente realista (será?), sem dúvida psicologicamente profundo, como é aquele que descreve nesse romance. O cenário é de guerra e o drama o da redução brutal da existência humana a puras relações de poder. Num universo sem sentido, o mal encontra a sua mais plena manifestação.
É importante ler este autor. Um escritor que se pautou sempre por uma grande radicalidade crítica na análise do ser humano e da sociedade, em particular da norte-americana.


Morreu Norman Mailer. A sua carreira literária e a sua vida estão repletas de polémicas. Concorde-se com ele ou não, olhe-se o mundo pela sua óptica ou não, é um escritor que alcançou uma dimensão universal. Impossível será negar a sua brilhante inteligência e, mais ainda, a sua esmagadora acutilância.

Vale a pena ler mais sobre Mailer e a sua obra aqui



(Imagens: resultado de pesquisa no Google)

domingo, 11 de novembro de 2007

Filosofia: "interpretar"


«Conceptualmente, podemos chamar verdade àquilo que não podemos mudar; metaforicamente, ela é o solo em que nos movemos e o céu que se expande por cima de nós.»
Hannah Arendt, Verdade e Política

A filosofia é aquele lugar único e maravilhoso, onde é possível pensar, questionar, problematizar e rever o mundo com um "olhar" que se insinua "por detrás" do próprio mundo.

Perante o que nos rodeia projectamos sempre um determinado "olhar"... Esse "olhar" é sempre uma interpretação. Daí as aspas.
Ora, interpretar coloca sempre problemas. Porque nada é o que é, como o "vemos" e ponto final. Basta querer "ver" de novo e há sempre mais qualquer coisa...a acrescentar ou, no mínimo, a reformular.
A interpretação - cada vez mais disso me convenço - sofre tremendos efeitos relacionados com o ponto de vista do observador. O autor desse tal "olhar". Sem querer cair num qualquer relativismo, dir-se-ia que nunca há um só "olhar" que seja o único válido. Porque toda a interpretação acontece num contexto x, y ou z...
Parece que a objectividade é uma mera quimera. E que nunca ninguém poderá entender-se completa e absolutamente com um "outro". Ou será, mesmo assim, ainda possível?
Talvez exista uma saída para o impasse. Perante muitos possíveis "olhares", perante múltiplas interpretações, na medida em que se encontrem pela necessidade de interacção continuada, não há outra hipótese: é preciso definir e estabelecer regras para interpretar. Esclarecer o contexto da interpretação é a via para a definição dos princípios subjacentes a essa interpretação e das regras que ela deve respeitar.

Kant resolveu a questão pela noção de sujeito transcendental, salvando assim a possibilidade da objectividade científica. Afirmou também a evidência de uma lei moral em nós. E ainda apelou à existência de uma possível intersubjectividade. Precisamente no que se refere a questões das mais susceptíveis quanto a "interpretações": as questões relacionadas com a nossa faculdade de julgar. Questões de gosto e de apreciação estética, por exemplo. Deste acordo intersubjectivo depende, no limite, a possibilidade da existência de progresso numa vida em comunidade da humanidade. O encontro do "eu" com os "outros". Outros "eus"... Neste caso, o contexto é universal e a solução tem um carácter formal.

Vamos todos interpretar da mesma forma? Ou o que acontece é criarmos uma permanente reinterpretação do mundo (concreto), a partir da contribuição de múltiplas e, na verdade, infinitas interpretações individuais e subjectivas porque vividas?
Até que ponto o nosso "olhar" é efectivamente individual? Provavelmente, há um pouco de nós em cada "visão" do mundo do "outro", sendo o inverso igualmente válido. Mas se cada um de nós se eclipsar enquanto pólo de interpretação do mundo, toda a "visão" desse mesmo mundo corre o risco de se tornar um vazio.

Toda a interpretação tem uma força única. Talvez o mundo não avance sem tal. Interpretar pode ser, por isso, vitalmente importante. Por paradoxal que pareça, interpretar tem tanto de força como de fragilidade. Uma interpretação de alguma coisa, de um facto, de um acontecimento, de um livro, de um filme, etc... é sempre só e apenas uma interpretação. Indispensável, inevitável, legítima e frágil na sua visão isolada.
Apelar a regras de interpretação, a normas e a princípios pode parecer limitador. No entanto, talvez só por essa via possa desenvolver-se uma interpretação consequente. É que só assim é possível comunicá-la. E poderemos viver sem tal dimensão? Poderemos alterar a nossa natureza de seres sociais? Não é ela constitutiva do nosso "eu" mais íntimo? Como concretizar qualquer acto comunicacional sem averiguar das condições necessárias e a todos exigidas para a sua efectiva realização? Fingir comunicação não é suficiente. E a verdadeira intercomunicabilidade tem regras. Tal como toda a interpretação e todo o discurso. Podemos lamentar(?), mas as "pontes" só se constroem com convenções. A própria sociedade é convencional. Os próprios actos anti-convencionais são resultado de convenções e, por isso mesmo, convenções também. Qualquer suposto projecto (ou anti-projecto) designadamente anárquico, nada mais é do que a redução da esfera de aplicação de outras convenções a universos micro-sociais. O que há é apenas um outro contexto e suas regras específicas.
Interpretar dentro de um contexto, nortear a interpretação de acordo com as regras definidas, nada disto lhe retira a liberdade de acontecer, antes lhe confere o direito de crescer e ser real.

A nossa interpretação é frágil. Está sempre suspensa sobre o mundo e sobre nós próprios, à espera de ser contrariada. Na sua fragilidade reside a sua força. Ela nasce do seu enérgico estatuto de direito à intervenção, pessoal e intransmissível-transmissível, no processo de Interpretação.
É preciso interpretar e fazê-lo com o nosso próprio "olhar".

(Imagem: Interpretationen de Zademack)

domingo, 4 de novembro de 2007

Ciro, o Grande


"Bem-vindo, peregrino, tenho estado à tua espera.
Perante ti jaz Ciro, Rei da Ásia, Rei do Mundo.
Tudo o que resta de mim é pó.
Não me invejes."
Inscrição no túmulo de Ciro, o Grande, em Pasárgadas

Nunca fui muito organizada nas minhas leituras, é verdade. A não ser por necessidade profissional, onde imponho a regra e a ordem, nas leituras paralelas de alguns tempos livres, gosto de seleccionar bastante ao acaso o que leio. Ao sabor do momento. E misturo sempre muitas leituras.
Ultimamente, e por diversas razões, oiço falar muito do Irão. Subitamente, concluí conhecer muito pouco deste país e da sua cultura. O Irão é a antiga Pérsia. Detentor(a) de uma cultura milenar e riquíssima. Portanto, "impunha-se", no mínimo, uma pequena leitura. Pelo menos, foi isso que me ditou o momento.

De facto, nestes últimos tempos, não tenho lido muito. Pelo menos, não tanto como é meu hábito. Acho que quanto a isto também não devem existir verdadeiras imposições. A leitura deve ser sempre o prazer de a querer fazer. E é por ser um dos meus maiores prazeres que nunca a abandono, por pouco tempo de que disponha ou mesmo quando atravesso uma fase mais contemplativa e reflexiva.

Posto isto, a minha leitura mais recente foi um livrinho sobre o Irão. Daqueles que nos dão um panorama rápido mas muito bem "construído". Vários factos interessantes chamaram a minha atenção. Mas foi a personagem de Ciro, o Grande (560-530 a.c.), que imediatamente me cativou. Desde logo, a inscrição no seu túmulo e que acima transcrevi. Parece-me admirável, profunda e grandiosa. Ferozmente carismática. Simultaneamente humilde. Uma personagem do passado, entre outras, que faz pensar. Por isso, aqui fica a nota. E mais alguma informação sobre...

"Ciro II foi rei do povo persa aqueménida que daria pouco depois o nome à primeira dinastia, a Aqueménida. (...) Ciro construiu uma enorme máquina militar admiravelmente disciplinada.
(...)
Ciro não foi só um líder militar brilhante; foi também um dos reis mais notáveis da História Antiga. Numa época em que a realeza parecia largamente definida pelo uso da força, Ciro destaca-se como um líder esclarecido, tolerante e sábio."

"Ciro tem uma aura incomparável de justiça e sabedoria no mundo antigo. Mesmo que só metade do que é dito a seu respeito seja verdade, então ele deu um exemplo de liderança esclarecida, rara até nos dias de hoje. O historiador grego Xenofonte escreveu um livro sobre Ciro chamado Ciropédia, que Alexandre, o Grande, terá tido à sua cabeceira, juntamente com a Ilíada de Homero e um punhal.
De acordo com o historiador romano Heródoto, Ciro prometeu: «respeitar as tradições, costumes e religiões das nações do meu império e nunca deixarei nenhum dos meus governadores e subordinados desprezá-las ou insultá-las(...). Não imporei a monarquia em nação alguma. Cada uma é livre de aceitá-la, e se alguma delas a rejeitar, determino que nunca reinarei pelo uso da guerra.»
Parte do seu sucesso militar foi devido ao facto de ter sido visto pelos povos invadidos mais como um libertador do que um conquistador. A conquista de Babilónia em 539 a.c. foi um caso típico. Quando Ciro chegou a Babilónia foi recebido com flores. Na Bíblia, aparece aclamado como o Messias que iria finalmente libertar o povo judeu do cativeiro dos reis Babilónios."

Ciro, o Grande (imperador persa)

"Para assegurar que o povo da Babilónia foi bem tratado, ele deixou estas palavras famosas inscritas numa pedra: «Eu sou Ciro, Rei da Babilónia, Rei da Suméria, Rei da Acádia, Rei de quatro países(...). O meu grandioso exército entrou pacificamente em Babilónia e não deixei que nenhum mal chegasse à terra da Babilónia e ao seu povo. Os modos respeitosos dos babilónios ensinaram-me (...) e eu ordenei que todos devem ser livres de adorar o seu deus sem prejuízo algum. Ordenei que nenhum lar fosse destruído e que nenhuma propriedade fosse tomada.»
Esta pedra, chamada Cilindro de Ciro, foi descoberta na Babilónia em 1879 e é agora largamente reconhecida como a primeira carta régia dos direitos humanos do mundo. Em 1971, as Nações Unidas traduziram-na para todas as suas línguas oficiais e colocaram essas traduções num lugar de destaque no edifício das Nações Unidas em Nova Iorque."

"Quando a defensora dos direitos humanos iraniana, Shirin Ebadi, recebeu o Prémio Nobel da Paz em 2003, declarou: «Sou uma iraniana descendente de Ciro, o Grande, o mesmo imperador que há 2500 anos proclamou do mais alto do seu poder "... que não reinaria se o povo não o desejasse", e que prometeu não obrigar ninguém a mudar a sua religião e a sua fé e garantiu a liberdade para todos.»"
excertos de O Irão, John Farndon

Pareceu-me igualmente importante, por outras razões, considerar o conceito de farr, o qual pode traduzir-se por carisma. A sua origem está ligada à figura de Zoroastro, a qual exerceu uma influência poderosa no nascimento da Pérsia. Na verdade, acabou por influenciar todo o mundo ocidental. E influencia, também e sobretudo, a forma como os iranianos vêem os seus líderes actualmente.
De acordo com Zoroastro, a noção de farr implica que um governante, como qualquer outro homem, possa prescindir da orientação divina, se assim entender. Mas, se o fizer, perde o farr, ou seja, o divino auxílio que lhe confere o direito de governar.
Um conceito cuja justificação está longe de ser consensual, certamente... Mas fundamental para compreender o Irão actual.

(Imagens: resultados de pesquisa no Google)

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Nonsense

Ou do absurdo que há em mim...

Céu riscado
Tempestade

Mais de 40
Sem protecção
Chega a hora
Agora só de impermeável

Está estragado e remendado
Mas impede calafrios
Repele dilúvios
E o grau gélido
Do ser

Mantém temperaturas-ambiente
Retém fragilidades
Impede absorção de horrores
Vindos dos circos, das feiras, dos palcos
Das montras nas ruas chiques
Onde debatem relâmpagos
Onde ribombam trovões
Onde ser must é um tique

O espectador indomável
Tem um impermeável
Maleável
E comprado
Um tudo nada estragado

Oh, My God!
Nunca percebeu nada de impermeáveis!
Acorde!

(Imagem: Trench Coat sous orage de Jean-Claude Clayes)

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Livros


Vale sempre a pena conhecer melhor a História. Vale sempre a pena conhecer melhor a História de Portugal. Vale sempre a pena conhecer melhor as mulheres que fazem História e, em especial, a do nosso país.
Vale a pena ler esta biografia de grande qualidade e acessível ao grande público.

Hoje tive o prazer de estar aqui

29 de Outubro 2007

(Imagem daqui )

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Tsunami


Não houve vaga que não atingisse a paz singular do meu universo
Em rota de colisão o mar-força destroça
Não sou 100% pós-moderna
Mas sempre pós-tsunami interior



(imagem daqui )

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Big Calm

Nisto dos blogs, por vezes, surge a interrogação: "Para que serve um blog?" É inevitável. Já me deparei por aqui com respostas ocas, outras bem interessantes, outras humorísticas. Na verdade, serve para muitas e distintas "coisas", consoante as pessoas. E acho que pode ser positivo.
O que acontece é exactamente o que acontece sempre: a vida. E nela todos os cambiantes e matizes de que somos feitos. Com novas tecnologias, fazemos um diferente registo histórico. Do mundo e de cada um de nós. Cria-se um registo. Marca-se um percurso. Que também se apaga. Mas na complexa teia de inter-relações, algo permanece inapagável. E na realidade incorpora-se este novo registo submundano. Provavelmente, em muitas situações reais, hiper-realistas mesmo, o que acontece não aconteceria sem ter passado por aqui.
Um blog pode ser tantas coisas: positivas e negativas.
Dentre as últimas, destaco formas de funcionamento como catapulta para as "luzes da ribalta", onde pode não existir verdadeira consistência real. Mas isso é como na vida, em geral.
Pela positiva, destaco a sua existência como "espaço" de intervenção efectiva do mais comum cidadão. E ainda o mero registo de emoções, sentimentos, pensamentos, etc de cada detentor de tal espaço. Movimento pelo qual, de forma poderosa e inovadora, se torna possível um auto-conhecimento e uma auto-análise, deste modo, fenómenos permanentemente actualizados. E sobretudo partilhados.
Esta pequena e modesta reflexão acerca do virtual resulta de uns largos meses de existência deste blog, e após este "timing" pessoal, a questão coloca-se-me mais. Quer isto dizer, com alguma frequência e urgência. Desta pergunta tão simples, pode resultar a finalização abrupta de blogs que acontece tantas vezes e já me foi dado observar. Mas também pode resultar a sua continuidade. No entanto, em cada dia, a pergunta permanece e a resposta estará implícita em cada mero "abrir da página".

Hoje, o meu registo vai para este videoclip delicioso, a eterna música a fazer-se ouvir...
É bom ter calma, uma grande calma... Mesmo que às cegas. Mesmo que de olhos tapados.
E é bom fazer existir um pouco dessa calma aqui.


sábado, 20 de outubro de 2007

"Canto de mim mesmo"


Com a estrondosa música venho, com as minhas cornetas e tambores,
Não só toco marchas para os vencedores aclamados, também as toco para os conquistados e abatidos.
Ouviste dizer que foi bom vencer?
Também te digo que é bom perder, as batalhas perdem-se com o mesmo espírito com que se ganham.

Toco e volto a tocar pelos mortos,

Sopro por eles a minha mais alta e alegre melodia.

Vivas pelos vencidos!
E por aqueles cujos vasos de guerra se afundaram no mar!
E pelos náufragos também!
E por todos os generais que perderam e por todos os vencidos heróis!
E pelos inumeráveis heróis desconhecidos iguais aos maiores heróis
conhecidos!
Walt Whitman, Canto de Mim Mesmo



(Imagem: trabalho de Richard Dana)