Agradeço a todos os que por aqui passaram, ao longo deste ano, a atenção dispensada.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Continua em...
Agradeço a todos os que por aqui passaram, ao longo deste ano, a atenção dispensada.
Posted by
Ana Paula Sena
at
06:23
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Pessimismo reformado
Nesta história singela, um homem vê-se confrontado com uma simbólica tentação que o leva à destruição, nomeadamente, ao fracasso enquanto artista pela realização medíocre da sua obra. A tentação que o atormenta e que, na verdade, poderia ser qualquer uma, desde que ligada ao prazer mais intenso e desregrado, reveste aqui a forma de uma pilha de maçãs, as quais, surgindo estranhamente numa arrecadação semi-abandonada, possuem cores e sabores (sabores, em especial) capazes de conduzir um homem à loucura, ao abandono de si e de toda a actividade produtiva. Parecem igualmente ter o efeito de o levar a optar por uma espécie de pacto com o diabo, em detrimento da escolha do bem identificado com o carácter sagrado da dignidade humana. A sua luta revela-se, logo à partida, algo artificial, uma vez que precisa de se comprometer com Deus, sob o jugo do medo que o domina, para conseguir realizar algo digno de nota para a sua vida e para si mesmo enquanto ser humano. Evidentemente, a história traz-nos toda uma série de ecos relacionados com o episódio bíblico do Jardim do Éden e respectivo "fruto proibido". Como se a "maçã de Adão e Eva" continuasse a atormentar-nos...
Problemático, profundo, encantador e filosófico-existencial, é este o universo de mais um grande escritor que ficará na lista dos meus admiráveis.
Compreendo o pessimismo e eu mesma também o vivo. Reconheço-lhe fundamentos. Mas suponho, com esperança, a existência de outras perspectivas. É que sem esse desafio no horizonte, a vida parece constituir um pântano que faz desaparecer ideias e com elas todo o futuro possível...
Evidentemente, há muitas espécies de pessimismo e são muito diversos os contextos onde ele se pode fazer sentir. No entanto, antes de qualquer especificidade, ele parece constituir um modo de existir que lenta e gradualmente impregna as nossas redes neuronais. Depois... reflecte-se no domínio mais propício num dado momento. E a outra pergunta é: o mundo e a humanidade são entidades essencialmente negativas, ou o nosso esquema mental dominante tem poder para os tornar tal e qual assim? Se tem, também pode criar o inverso e trazê-lo efectivamente à existência.
Aqui fica uma posição que me pareceu interessante, manifestada por alguém de quem vale a pena saber mais... Jacques Attali! Sobretudo porque é uma visão optimista!
"(... a dualidade da história: ao mesmo tempo sentido e movimento, imobilidade e repetitividade. No fundo, a única coisa imóvel na história é o modo como as formas, naturais e sociais, nascem e desaparecem. Aquilo a que chamamos habitualmente a crise é, pois, o estado permanente de toda a realidade: uma forma é sempre uma tensão para um ideal, em realização ou em destruição; e a "não crise" é um momento extraordinariamente fugaz, uma utopia volátil entre dois períodos de crise, de reescritura do texto da história do mundo."
"A história é antes do mais a procura insaciável da liberdade contra a barbárie. Utiliza sempre a desordem, o mal, como sinal anunciador da urgência da ultrapassagem de si. Ainda aí, como em todas as coisas, o mal pode ser fonte de bem."
Posted by
Ana Paula Sena
at
03:07
domingo, 20 de janeiro de 2008
Dino Buzzati
"O Deserto dos Tártaros" é o romance considerado a sua obra-prima, do qual vi há alguns anos a adaptação ao cinema de Valerio Zurlini. Desde logo, fiquei fascinada com o ambiente recriado, uma atmosfera de imobilidade onde a acção decorre quase só pelo poder mental de projectar os acontecimentos desejados e ambicionados. Essa mesma temática está igualmente presente em muitos dos seus contos, a avaliar por estes que li. Ou seja, Buzzati descreve o ser humano como aquele cuja energia criadora pode ser devastadora. Com a capacidade única de introduzir na realidade dimensões fantásticas e surreais, as quais conduzem a sua existência, na maior parte das vezes, a um irredutível absurdo. Pode não acontecer quase nada efectiva e realmente, mas a partir da intervenção criadora do humano, acontecem inumeráveis coisas... outras... É essa também a ideia, em grande parte, de "Pânico no Scala".

"(...) Maio ia já bem adiantado, é verdade, altura em que a temporada do Scala, no entender dos mais intransigentes, começa a declinar, ocasião em que é de boa norma oferecer ao público, composto em grande parte por turistas, espectáculos de êxito seguro que não são duma exigência excessiva, escolhidos no repertório clássico mais tradicional; (...).
Mas naquela noite havia espectáculo de gala. (...) Eram nove menos dez, o teatro já estava cheio. Cottes olhou à volta, extasiado como um rapazinho. Por mais que os anos passassem, a primeira sensação, sempre que entrava naquela sala, mantinha-se pura e viva, como perante os grandes espectáculos da natureza. Muitos outros, com os quais trocava fugazes sinais de saudação, sentiam o mesmo, sabia-o. Disso mesmo nascia uma espécie de fraternidade, uma espécie de inócua maçonaria que aos estranhos, devia parecer porventura um pouco ridícula. (...)"

Sim, ele, quarentão, tinha ido brincar com crianças, julgando-se criança, só que nas crianças reside uma espécie de angélica leveza, enquanto ele acreditara que era tudo a sério, com uma fé pesada e furiosa, incubada, quem sabe, por tantos anos sem dela ter consciência. Uma fé tão forte que tudo se tornara verdade - a ravina, os selvagens, o sangue. Entrara num mundo que já não era o seu, o das fábulas, passara os confins que não se podem impunemente tentar numa certa estação da vida. Dissera a uma porta secreta abre-te, julgando quase brincar, mas a porta abrira-se verdadeiramente. Dissera selvagens e assim acontecera. Seta, por brincadeira, e verdadeira seta o matava. (...)"
(As imagens foram obtidas em pesquisa do Google)
Posted by
Ana Paula Sena
at
07:03
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Trópico de Capricórnio
Posted by
Ana Paula Sena
at
02:59
domingo, 6 de janeiro de 2008
Alguém contou...

Tudo se deu naquele dia, naquele encontro. Não sei se o primeiro, segundo ou terceiro. A ordem não importa. O instante sim. No momento etéreo quando o olhar olhou - entendeu - e o outro olhar só viu o que era magia. A vida às vezes faz-se em sintonia. Quando as vozes são da mesma ternura. Basta uma só vez para valer a pena.
(Tenho que recriar o resto da história!)
Posted by
Ana Paula Sena
at
03:10
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
domingo, 23 de dezembro de 2007
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
Âmago
Nas áleas largas dos jardins exactos
Basta para podermos
Achar a vida leve."
Posted by
Ana Paula Sena
at
03:15
domingo, 9 de dezembro de 2007
O mundo...
Hoje, eu sinto: mesmo que diga o que penso, o que sinto... O mundo não vai mudar.
Mesmo assim, às vezes, digo. Mostro. Pela atracção do abismo....... que é a palavra pela qual se diz. Pelo instante da imagem... que é a força da síntese com que se mostra. Pelo chamamento da sonoridade... que é a música, pormenor da sensibilidade.
Não creio mudar o mundo.
Creio apenas estar no mundo.
Posted by
Ana Paula Sena
at
02:22
domingo, 2 de dezembro de 2007
Drama chic
Deparei-me com um elenco repleto de nomes sonantes do cinema e com o nome de Michael Cunningham no argumento. Escritor que tenho em grande conta.
Pode ler-se um pouco mais sobre os detalhes do filme e respectiva sinopse aqui
ou aqui
Drama chic ou não, foi isso que não gostei no filme. O contraste altamente pessimista entre o idílio de um passado romântico de maravilhas dignas de "pacotes de viagens a lugares de sonho" e o terminus da vida, num quarto, numa cama que é conotada com o fim e com uma prisão física, um lugar onde o sol mal chega a entrar... Todo o filme decorre neste alternar de ambientes carregados de mensagens subliminares. Uma visão pessimista que gera um filme pessimista. E melodramático. Induz as lágrimas sentidas, mas conscientes de que houve muito de manipulação nesse efeito secundário. Uma mistura de "Grande Gatsby" e de romance tipo Nicholas Spark ("O Diário da Nossa Paixão", por ex.), se é que é permitido misturar dois produtos de qualidades tão distintas.
Não pude deixar de pensar numa determinada concepção de alma, algo pessimista (o que vai bem com o clima criado) e que está presente em várias cenas, especialmente na do desfecho. A da alma-sopro. Uma ideia de alma que remonta a Homero e que na última cena perpassa a mensagem final, ao deixar entrar uma brisa forte pelas janelas do quarto, agitando as cortinas brancas, no momento da morte de Ann... Não inovadora, mas bem feita. E sempre uma recriação interessante.
Posted by
Ana Paula Sena
at
08:47
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
Leonardo
Sabemos, portanto, pouco.
(...)
Que ocultava, pois, a personalidade de Leonardo à compreensão dos seus contemporâneos? (...) Nos tempos da Renascença era habitual a reunião num só indivíduo de múltiplas capacidades; o próprio Leonardo era, de facto, um dos exemplos mais brilhantes dessa época.
(...)
É bem possível que este retrato de um Leonardo radioso, alegre e apreciador dos prazeres não corresponda senão a um primeiro e mais longo período da vida do mestre. A partir daí, quando a decadência do poderio de Lodovico Moro o obrigou a deixar Milão, a sua esfera de actividade e a sua posição segura, e a levar uma existência agitada e sem brilho até ao seu último asilo em França, o humor de Leonardo pode ter-se tornado mais sombrio e alguns aspectos estranhos do seu carácter terem-se acentuado. A deslocação dos seus interesses, que com os anos se foram paulatinamente transferindo da sua arte para a ciência, também deve ter contribuído para alargar o fosso entre si e os seus contemporâneos."
Esta personalidade fascinante, revelada em todos os seus trabalhos, está muito para além do ícone que funcionou como elemento aglutinador no romance de Dan Brown, "O Código da Vinci".
Para a sua pintura isto teve como consequência que Leonardo perdesse o gosto pelo uso do pincel, pintasse cada vez menos, deixasse muitas obras inacabadas e pouco se interessasse pelo seu destino. Era também isto que os seus contemporâneos lhe criticavam, pois a sua atitude perante a arte continuava a ser para eles um enigma.
Admiradores ulteriores de Leonardo tentaram apagar do seu carácter a mancha da inconstância, alegando que o que se lhe censura é próprio dos grandes artistas. (...) A penosa luta com a obra, a fuga final perante a sua realização e a indiferença pelo seu destino ulterior podem encontrar-se em muitos outros artistas; mas sem dúvida que Leonardo apresentava este comportamento ao mais alto grau."
Evidentemente, todo o texto reflecte o esquema da interpretação psicanalítica. Hoje, este esquema pode ser considerado algo limitador, mas continua a ser referência para a criação de novas perspectivas acerca dos labirintos da mente e da vida humanas.
Neste caso, a interpretação profunda do perfil psicológico de alguém como Leonardo da Vinci mostra-nos, antes de mais, a sua humanidade repleta de contradições, de medos, de dúvidas, de inconstâncias e de arrependimentos. Não um ser perfeito, mas um ser com defeitos, fraquezas e recalcamentos. Se sublimou tudo isso, soube fazê-lo com resultados magníficos!
Sinceramente... considerando a nossa época actual... e usando linguagem psicanalítica:
Às vezes, um bocadinho de sublimação não faz mal nenhum. Pelo contrário!
(Imagens: Desenhos de Leonardo da Vinci obtidos em pesquisa do Google)
Posted by
Ana Paula Sena
at
18:44
domingo, 18 de novembro de 2007
Disneylândia de Diane Airbus
A consciencialização que realizei acerca do seu trabalho resultou de ter visto o filme "Fur - An Imaginary Portrait of Diane Airbus" (realizado por Steven Shainberg, EUA, 2006).
O filme é baseado no livro "Diane Airbus: A Biography" (2005) de Patricia Bosworth. O acesso à vida e ao trabalho da fotógrafa foi estritamente controlado pela sua filha Doon, a partir de 1971, data em que a artista se suicidou. Só recentemente, Doon permitiu que fosse trazida a público, quer a vida, quer a obra da mãe. Em relação ao filme, ele motivou alguns protestos por parte da família, na medida em que o terão considerado não respeitador de alguns factos reais e importantes na vida de Diane Airbus.
Como o próprio título do filme indica, trata-se de uma visão imaginada. Por isso, abre apenas uma espécie de "janela imaginária", a partir da qual é possível captar a dimensão única do seu trabalho. O que pode ser muito...
Neste aspecto de possibilitar a abertura a um certo universo particular, o filme pareceu-me inegavelmente bom de tão revelador: o conflito latente de uma mulher, Diane, dividida entre a exigência e o desejo de perfeição, assim como de adequação absoluta aos ideais da sociedade norte-americana daquela época, e a necessidade de realização artística, face à energia criativa que a dominava cada vez mais. Pelo filme, é possível pressentir o conflito que nos vai invadindo de um modo algo silencioso e, por isso mesmo, muito subtil.
Por todos estes motivos, posso afirmar que gostei do filme.
Entre outros aspectos interessantes do trabalho de Diane Airbus, o que mais retenho é essa capacidade de recriação da realidade, introduzindo nela uma atmosfera de "diferença" perante a banalidade do real. Ao mesmo tempo que não deixa de revelar esse mesmo real com grande intensidade e lucidez. Por vezes, a realidade nua e crua mas tornada "especial".
Esta pequena divagação, acerca da minha admiração pelas fotografias desta artista, é uma igualmente pequena homenagem ao seu grande talento e criatividade.
Além da alusão ao filme, aqui fica também a Disneylândia vista com o seu "olhar" e a sua máquina fotográfica. Uma das minhas preferidas, entre as que encontrei...
Posted by
Ana Paula Sena
at
09:49
terça-feira, 13 de novembro de 2007
Literatura
É importante ler este autor. Um escritor que se pautou sempre por uma grande radicalidade crítica na análise do ser humano e da sociedade, em particular da norte-americana.
Vale a pena ler mais sobre Mailer e a sua obra aqui
Posted by
Ana Paula Sena
at
11:52
domingo, 11 de novembro de 2007
Filosofia: "interpretar"
A filosofia é aquele lugar único e maravilhoso, onde é possível pensar, questionar, problematizar e rever o mundo com um "olhar" que se insinua "por detrás" do próprio mundo.
Perante o que nos rodeia projectamos sempre um determinado "olhar"... Esse "olhar" é sempre uma interpretação. Daí as aspas.
Ora, interpretar coloca sempre problemas. Porque nada é o que é, como o "vemos" e ponto final. Basta querer "ver" de novo e há sempre mais qualquer coisa...a acrescentar ou, no mínimo, a reformular.
A interpretação - cada vez mais disso me convenço - sofre tremendos efeitos relacionados com o ponto de vista do observador. O autor desse tal "olhar". Sem querer cair num qualquer relativismo, dir-se-ia que nunca há um só "olhar" que seja o único válido. Porque toda a interpretação acontece num contexto x, y ou z...
Parece que a objectividade é uma mera quimera. E que nunca ninguém poderá entender-se completa e absolutamente com um "outro". Ou será, mesmo assim, ainda possível?
Talvez exista uma saída para o impasse. Perante muitos possíveis "olhares", perante múltiplas interpretações, na medida em que se encontrem pela necessidade de interacção continuada, não há outra hipótese: é preciso definir e estabelecer regras para interpretar. Esclarecer o contexto da interpretação é a via para a definição dos princípios subjacentes a essa interpretação e das regras que ela deve respeitar.
Kant resolveu a questão pela noção de sujeito transcendental, salvando assim a possibilidade da objectividade científica. Afirmou também a evidência de uma lei moral em nós. E ainda apelou à existência de uma possível intersubjectividade. Precisamente no que se refere a questões das mais susceptíveis quanto a "interpretações": as questões relacionadas com a nossa faculdade de julgar. Questões de gosto e de apreciação estética, por exemplo. Deste acordo intersubjectivo depende, no limite, a possibilidade da existência de progresso numa vida em comunidade da humanidade. O encontro do "eu" com os "outros". Outros "eus"... Neste caso, o contexto é universal e a solução tem um carácter formal.
Vamos todos interpretar da mesma forma? Ou o que acontece é criarmos uma permanente reinterpretação do mundo (concreto), a partir da contribuição de múltiplas e, na verdade, infinitas interpretações individuais e subjectivas porque vividas?
Até que ponto o nosso "olhar" é efectivamente individual? Provavelmente, há um pouco de nós em cada "visão" do mundo do "outro", sendo o inverso igualmente válido. Mas se cada um de nós se eclipsar enquanto pólo de interpretação do mundo, toda a "visão" desse mesmo mundo corre o risco de se tornar um vazio.
Toda a interpretação tem uma força única. Talvez o mundo não avance sem tal. Interpretar pode ser, por isso, vitalmente importante. Por paradoxal que pareça, interpretar tem tanto de força como de fragilidade. Uma interpretação de alguma coisa, de um facto, de um acontecimento, de um livro, de um filme, etc... é sempre só e apenas uma interpretação. Indispensável, inevitável, legítima e frágil na sua visão isolada.
Apelar a regras de interpretação, a normas e a princípios pode parecer limitador. No entanto, talvez só por essa via possa desenvolver-se uma interpretação consequente. É que só assim é possível comunicá-la. E poderemos viver sem tal dimensão? Poderemos alterar a nossa natureza de seres sociais? Não é ela constitutiva do nosso "eu" mais íntimo? Como concretizar qualquer acto comunicacional sem averiguar das condições necessárias e a todos exigidas para a sua efectiva realização? Fingir comunicação não é suficiente. E a verdadeira intercomunicabilidade tem regras. Tal como toda a interpretação e todo o discurso. Podemos lamentar(?), mas as "pontes" só se constroem com convenções. A própria sociedade é convencional. Os próprios actos anti-convencionais são resultado de convenções e, por isso mesmo, convenções também. Qualquer suposto projecto (ou anti-projecto) designadamente anárquico, nada mais é do que a redução da esfera de aplicação de outras convenções a universos micro-sociais. O que há é apenas um outro contexto e suas regras específicas.
Interpretar dentro de um contexto, nortear a interpretação de acordo com as regras definidas, nada disto lhe retira a liberdade de acontecer, antes lhe confere o direito de crescer e ser real.
A nossa interpretação é frágil. Está sempre suspensa sobre o mundo e sobre nós próprios, à espera de ser contrariada. Na sua fragilidade reside a sua força. Ela nasce do seu enérgico estatuto de direito à intervenção, pessoal e intransmissível-transmissível, no processo de Interpretação.
É preciso interpretar e fazê-lo com o nosso próprio "olhar".
(Imagem: Interpretationen de Zademack)
Posted by
Ana Paula Sena
at
05:14
domingo, 4 de novembro de 2007
Ciro, o Grande
Perante ti jaz Ciro, Rei da Ásia, Rei do Mundo.
Tudo o que resta de mim é pó.
Não me invejes."
Ultimamente, e por diversas razões, oiço falar muito do Irão. Subitamente, concluí conhecer muito pouco deste país e da sua cultura. O Irão é a antiga Pérsia. Detentor(a) de uma cultura milenar e riquíssima. Portanto, "impunha-se", no mínimo, uma pequena leitura. Pelo menos, foi isso que me ditou o momento.
De facto, nestes últimos tempos, não tenho lido muito. Pelo menos, não tanto como é meu hábito. Acho que quanto a isto também não devem existir verdadeiras imposições. A leitura deve ser sempre o prazer de a querer fazer. E é por ser um dos meus maiores prazeres que nunca a abandono, por pouco tempo de que disponha ou mesmo quando atravesso uma fase mais contemplativa e reflexiva.
Posto isto, a minha leitura mais recente foi um livrinho sobre o Irão. Daqueles que nos dão um panorama rápido mas muito bem "construído". Vários factos interessantes chamaram a minha atenção. Mas foi a personagem de Ciro, o Grande (560-530 a.c.), que imediatamente me cativou. Desde logo, a inscrição no seu túmulo e que acima transcrevi. Parece-me admirável, profunda e grandiosa. Ferozmente carismática. Simultaneamente humilde. Uma personagem do passado, entre outras, que faz pensar. Por isso, aqui fica a nota. E mais alguma informação sobre...
"Ciro II foi rei do povo persa aqueménida que daria pouco depois o nome à primeira dinastia, a Aqueménida. (...) Ciro construiu uma enorme máquina militar admiravelmente disciplinada.
(...)
Ciro não foi só um líder militar brilhante; foi também um dos reis mais notáveis da História Antiga. Numa época em que a realeza parecia largamente definida pelo uso da força, Ciro destaca-se como um líder esclarecido, tolerante e sábio."
"Ciro tem uma aura incomparável de justiça e sabedoria no mundo antigo. Mesmo que só metade do que é dito a seu respeito seja verdade, então ele deu um exemplo de liderança esclarecida, rara até nos dias de hoje. O historiador grego Xenofonte escreveu um livro sobre Ciro chamado Ciropédia, que Alexandre, o Grande, terá tido à sua cabeceira, juntamente com a Ilíada de Homero e um punhal.
De acordo com o historiador romano Heródoto, Ciro prometeu: «respeitar as tradições, costumes e religiões das nações do meu império e nunca deixarei nenhum dos meus governadores e subordinados desprezá-las ou insultá-las(...). Não imporei a monarquia em nação alguma. Cada uma é livre de aceitá-la, e se alguma delas a rejeitar, determino que nunca reinarei pelo uso da guerra.»
Parte do seu sucesso militar foi devido ao facto de ter sido visto pelos povos invadidos mais como um libertador do que um conquistador. A conquista de Babilónia em 539 a.c. foi um caso típico. Quando Ciro chegou a Babilónia foi recebido com flores. Na Bíblia, aparece aclamado como o Messias que iria finalmente libertar o povo judeu do cativeiro dos reis Babilónios."
Esta pedra, chamada Cilindro de Ciro, foi descoberta na Babilónia em 1879 e é agora largamente reconhecida como a primeira carta régia dos direitos humanos do mundo. Em 1971, as Nações Unidas traduziram-na para todas as suas línguas oficiais e colocaram essas traduções num lugar de destaque no edifício das Nações Unidas em Nova Iorque."
De acordo com Zoroastro, a noção de farr implica que um governante, como qualquer outro homem, possa prescindir da orientação divina, se assim entender. Mas, se o fizer, perde o farr, ou seja, o divino auxílio que lhe confere o direito de governar.
Um conceito cuja justificação está longe de ser consensual, certamente... Mas fundamental para compreender o Irão actual.
(Imagens: resultados de pesquisa no Google)
Posted by
Ana Paula Sena
at
04:35
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
Nonsense
Tempestade
Sem protecção
Chega a hora
Agora só de impermeável
Mas impede calafrios
Repele dilúvios
E o grau gélido
Do ser
Mantém temperaturas-ambiente
Retém fragilidades
Impede absorção de horrores
Vindos dos circos, das feiras, dos palcos
Das montras nas ruas chiques
Onde debatem relâmpagos
Onde ribombam trovões
Onde ser must é um tique
O espectador indomável
Tem um impermeável
Maleável
E comprado
Oh, My God!
Nunca percebeu nada de impermeáveis!
Acorde!
Posted by
Ana Paula Sena
at
00:45
terça-feira, 30 de outubro de 2007
Livros
Vale a pena ler esta biografia de grande qualidade e acessível ao grande público.
Hoje tive o prazer de estar aqui
29 de Outubro 2007
(Imagem daqui )
Posted by
Ana Paula Sena
at
03:21
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
terça-feira, 23 de outubro de 2007
Big Calm
O que acontece é exactamente o que acontece sempre: a vida. E nela todos os cambiantes e matizes de que somos feitos. Com novas tecnologias, fazemos um diferente registo histórico. Do mundo e de cada um de nós. Cria-se um registo. Marca-se um percurso. Que também se apaga. Mas na complexa teia de inter-relações, algo permanece inapagável. E na realidade incorpora-se este novo registo submundano. Provavelmente, em muitas situações reais, hiper-realistas mesmo, o que acontece não aconteceria sem ter passado por aqui.
Um blog pode ser tantas coisas: positivas e negativas.
Dentre as últimas, destaco formas de funcionamento como catapulta para as "luzes da ribalta", onde pode não existir verdadeira consistência real. Mas isso é como na vida, em geral.
Pela positiva, destaco a sua existência como "espaço" de intervenção efectiva do mais comum cidadão. E ainda o mero registo de emoções, sentimentos, pensamentos, etc de cada detentor de tal espaço. Movimento pelo qual, de forma poderosa e inovadora, se torna possível um auto-conhecimento e uma auto-análise, deste modo, fenómenos permanentemente actualizados. E sobretudo partilhados.
Esta pequena e modesta reflexão acerca do virtual resulta de uns largos meses de existência deste blog, e após este "timing" pessoal, a questão coloca-se-me mais. Quer isto dizer, com alguma frequência e urgência. Desta pergunta tão simples, pode resultar a finalização abrupta de blogs que acontece tantas vezes e já me foi dado observar. Mas também pode resultar a sua continuidade. No entanto, em cada dia, a pergunta permanece e a resposta estará implícita em cada mero "abrir da página".
Hoje, o meu registo vai para este videoclip delicioso, a eterna música a fazer-se ouvir...
É bom ter calma, uma grande calma... Mesmo que às cegas. Mesmo que de olhos tapados.
E é bom fazer existir um pouco dessa calma aqui.
Posted by
Ana Paula Sena
at
09:42
sábado, 20 de outubro de 2007
"Canto de mim mesmo"
Não só toco marchas para os vencedores aclamados, também as toco para os conquistados e abatidos.
Ouviste dizer que foi bom vencer?
Também te digo que é bom perder, as batalhas perdem-se com o mesmo espírito com que se ganham.
Toco e volto a tocar pelos mortos,
Sopro por eles a minha mais alta e alegre melodia.
Vivas pelos vencidos!
E por aqueles cujos vasos de guerra se afundaram no mar!
E pelos náufragos também!
E por todos os generais que perderam e por todos os vencidos heróis!
E pelos inumeráveis heróis desconhecidos iguais aos maiores heróis
conhecidos!
Posted by
Ana Paula Sena
at
04:25





































